NOTAS SOBRE ATELOFOBIA

Eu vivo em dúvida há muito tempo. Não sei muito ao certo o que o Universo tem guardado para o meu futuro. Aos 35 anos, sinto que sou uma criança malcriada com o mundo, que não aceita o destino imediato, que luta todos os dias com demônios internos, com inseguranças e medos aterrorizantes de que meu fim pode ser solitário. Acredito que me diagnostiquei nesse momento portadora de atelofobia, a saber: é um tipo de fobia caracterizada pelo medo de não ser bom o bastante ou não se sentir suficiente. Essa fobia desenvolve uma angústia constante pelo medo da imperfeição e do julgamento alheio.

Depois de ter minha cabeça, minha dignidade, meu coração e minha alma, todos pisoteados por tanta gente e por tanto tempo, lá no fundo, ainda não me sinto capaz de lutar todos os dias contra o que vejo no espelho, contra a subordinação constante à vontade dos que me rodeiam, contra o que todos ditam ser o certo. Eu não sinto nada certo. Ficou tudo ao contrário, de ponta-cabeça, e continua assim, de certa maneira.

Eu nunca fui a primeira escolhida nas brincadeiras de criança, sempre a última, “a sobra”. Eu nunca fui amada à primeira vista. Mas eu sempre fui a primeira da classe, a melhor aluna, o exemplo de sucesso para familiares. Complicado isso né?

Venho trabalhando tantos aspectos da minha vida ao mesmo tempo que, às vezes, chego ao ponto de paralisar, de congelar. Não sei ao certo o que eu quero mais da minha vida: se um amor, se dinheiro, se viajar ou até mesmo fugir das pessoas que já me conhecem e começar tudo de novo bem longe de onde estou atualmente. As minhas duas últimas perdas trouxeram consequências inesperadas, quase que me provocando a tomar algum tipo de atitude. E eu acredito que tomei, que estou virando o jogo, mas às vezes, a insegurança me domina.

Eu sei das minhas habilidades, da minha inteligência. Não reconheço beleza física, não reconheço sedução, não reconheço feminilidade, e isso me destrói por dentro. Eu sou uma mulher que pensa como homem, mas que quer pensar como uma mulher e não consegue. Porque mulheres são, em sua essência, sem querer, traiçoeiras, instáveis. Uma coisa está no meu DNA: a insegurança feminina. O medo de não ser aprovada, de não ser atraente o suficiente, bonita o suficiente.

Às vezes acho que é isso que me deixa nesse ponto de paralisia: saber que eu não sou o que todos esperam que eu seja. Fui educada a pensar que minha eloquência, minha inteligência, minha linha de raciocínio prolixa é suficientemente sedutora para ter sucesso em meus empreendimentos pessoais e profissionais. Mas aí vem essa maldita insegurança e me coloca em cheque; eu deveria me cuidar mais? Ser mais vaidosa? Ser mais burra? O que é ser feminina? O que é ser sedutora? Ser assim é bom ou ruim? O que o mundo quer de mim afinal?

Eu pago por pecados que não cometi. E os que eu de fato cometi, tiveram consequências bizarras, diferentes das que imaginei por ser madura e assumir responsabilidade por erros cometidos. Eu sou um ser humano. Como passar por cima de tudo isso? Como aceitar que eu, sem graça ou sensualidade, sem grande sofisticação feminina mas com grande sofisticação intelectual, posso ser considerada algo que não sou por pessoas que mal me conhecem? Não sei mais o que pensar, e quanto mais eu tento pensar a respeito, mais meus miolos queimam.

Pessoas de satanáries costumam ser impulsivas. Eu deixei meus impulsos de lado há tempo suficiente para entender que o satanáries deve usar suas qualidades ao máximo e tornar seus defeitos exploráveis em seu favor. Eu preciso de um plano. Pra tudo, geral, pra vida.

Acho que agora eu tenho um. Eu disse pra alguém por esses dias, numa conversa antes de dormir, que eu preciso de um precipício pra me jogar alguém pra me segurar quando eu chego ao chão para encontrar sentido na vida; pois bem. O precipício eu encontrei. Ainda não sei se tenho aquela rede de segurança para quando eu executar meu próximo mergulho de cabeça na vida.

Talvez com esse novo plano, a ideia seja que eu me jogue sozinha, sem ninguém pra me ajudar. E talvez isso, definitivamente, me torne uma grande mulher, bela por dentro, por fora, inteligente, sedutora, a mulher magnífica que sempre sonhei ser.

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