NÃO QUERO DIZER ADEUS

Texto inspirado em uma música.

É aquela noite. A última noite, sem saber. Foi um dia lindo: a luz do sol entrou por todas as janelas daquele quarto frio, de piso de madeira, esquentando seu corpo, arrepiando sua pele, refletindo o brilho dos seus olhos. E eu me despi. Não foram só as roupas que saíram do meu corpo: foi um pedido desesperado para que o sol não se deitasse. Foi o calor do meu corpo, querendo passar para o seu. Foi a minha alma indo embora junto com cada suspiro de prazer.

Tudo indo embora, e nós dois fazendo força para ficarmos. Sabíamos que seria assim: era o fluxo da vida, era a pedra no sapato, era o medo de admitir que o coração errou. Era sua língua pedindo pra minha boca: “me tome, não me deixe, eu não quero viver sem isso”. Nos encaramos. Sabemos a verdade: a gente diz que é pra sempre, mas nada é permanente. Tudo muda, o tempo todo, mesmo quando não queremos.

A estrada que você escolheu é diferente da minha. Mas só queremos uma noite, só mais uma. Um pouso em seu peito. Uma carícia a mais. Só mais um beijo. Só mais essa brisa. Um último gole de café, o último cigarro, a última conversa cara a cara. Eu não quero dizer adeus, nem você. Porque esperamos tanto por isso a vida inteira, pelo momento certo, pela alma certa, pela paixão queimando em nossas auras que mal conseguimos disfarçar. Mas a noite chegou.

Tudo de novo, pela última vez. Nós tentamos: esticamos cada segundo e transformamos em horas. Cada poro do corpo transformado em uma lagoa cristalina. Cada fluido magicamente correndo como a água do mar. Cada sensação vira uma onda batendo nas pedras, de tão intensas. Não quero dizer adeus. Nem você. E repetimos isso um pro outro em silêncio. Não são necessárias palavras. Elas, sozinhas, de nada servem.

Um último olhar e a certeza do adeus iminente. Eu já disse, eu não quero, você já me disse, nem você. Seus olhos disseram: “eu não quero ter que me afastar de você”. E quanto mais raios de sol reaparecem no leste, mais magnético tudo fica, mais nos atraímos, mesmo estando em polos opostos. Precisamos nos repelir. Pele. Corpo. Espírito. Cada um pra um lado, tentando buscar outro sentido. Mas sabendo, lá no fundo, que não era pra ser assim. Teimosia do adeus. É a razão falando. Porque o coração, esse se calou, com medo. Muito medo. Mas ele quer dizer pra você que vai voltar, e vai ficar perto do seu. Ainda em silêncio, em areias brancas, talvez rosadas; com o som do oceano como trilha sonora. Com o seu calor e o meu emanando a energia de um novo amanhecer. Sem adeus dessa vez.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s