AS REVELAÇÕES QUE MACHUCAM

Nesses últimos dias, eu tive uma revelação triste: finalmente consegui algumas explicações que eu precisava para parar de me torturar. Mas, em vez de ouvir de quem eu queria ouvir, acabei ouvindo de uma terceira pessoa, o que me deixou ainda pior. Acho que agora começo a entrar num processo real de recuperação da minha autoestima. Entender o que acontece com uma circunstância ou uma pessoa em particular é essencial para seguir em frente, diria o meu terapeuta, melhor ainda se vier em forma de verdade dura.

A minha verdade chegou. Dura, fria, decepcionante. Por muito tempo, pensei em ser compreensiva com toda a situação que eu vivi, e mulher tem uma memória pra palavras ditas que é um lixo: a gente grava tudo e volta como se fosse uma fita cassete, a gente se lembra dos aromas, do ambiente, de tudo relacionado àquelas palavras que ouvimos. E isso tem sido um impedimento constante em seguir em frente. Porque eu relembro as palavras e relembro das circunstâncias, do ambiente, do som das coisas, da iluminação do local quando eu as ouvi. E tudo me remete a uma sinceridade que jamais existiu. Até hoje, eu nunca pensei que meu coração seria partido por uma amizade do jeito que foi. Hoje, em uma reflexão a partir das revelações que eu tive, cheguei à conclusão de que fui feita de trouxa, de que nunca tive a amizade e a confiança que pensei ter.

Realmente fui abandonada aos lobos. De propósito. Por uma “questão de sobrevivência”. Muita coisa ficou explicada: os constantes assédios morais e psicológicos estão justificados agora. Os segredos foram quase que anunciados num microfone e as hienas não só acharam graça, como aproveitaram a oportunidade, já que eu não passo de carne velha pra essa pessoa que eu considerava tanto, e terminaram de me abater. Eu tento sentir ódio, mas não consigo. E eu preciso desse ódio pra consertar a minha alma arrebentada por tanta decepção.

É horrível perceber que uma pessoa pela qual a gente nutria bons sentimentos, boas energias, nunca fez isso de verdade de volta. A recíproca jamais foi verdadeira. Eu era só um tripé. Eu nunca fui uma amiga querida, uma parceira, uma confidente. Eu só era um bichinho de estimação, tipo um peixinho dourado, que, quando a pessoa tá de mudança e não consegue carregar o aquário, joga na privada. Mal consigo escrever esse desabafo sem chorar e sem pensar em como eu fui idiota.

É um problema meu mesmo no final. Sou eu quem confia demais nas pessoas e se apega às amizades que faz. Eu já deveria ter aprendido a essa altura do campeonato, com a idade que eu tenho, que as pessoas são mesmo cruéis e pragmáticas. Elas não sonham. Parece que eu nasci na época errada, cercada de pessoas erradas pra interagir ao longo da vida. Eu já tinha passado por isso tudo algumas vezes, não consigo acreditar que passei de novo. Não vi o golpe de machado no meu peito sendo desferido.

E as pessoas nunca vão entender. Sempre acharão tudo muito pequeno, de pouco impacto, é “só um drama desnecessário”. Pequenas coisas vão minando a nossa cabeça e o nosso coração. Pequenos detalhes vão dissolvendo a nossa alma e a nossa capacidade de doação. E, honestamente, não sei porque isso não acontece no meu caso, porque se acontecesse, eu não tinha passado por isso de novo. Mas dessa vez parece ter sido maior o tombo. Parece que a ferida é mais profunda. Talvez seja a idade, as pessoas e as circunstâncias. Passei tanto tempo assim sendo enganada por mim? Como é possível? Quero não acreditar mais em ninguém, quero passar meus dias mais sozinha, minhas noites praticamente em coma ao invés de me culpar por me maltratar tanto.

Eu fui um objeto, de novo.

Eu não quero mais ser um objeto. Não mereço isso, mas eu mesma pareço não entender isso.

Há cerca de um mês, eu recebi uma mensagem extremamente cruel vinda do remetente dessa pessoa em quem eu tanto confiava e de quem eu tanto gostava. Quando li, não comprei a ideia de que essa pessoa tinha mesmo escrito aquilo tudo. Então deixei pra lá. Agora, com tudo o que eu sei, começo a pensar que a mensagem veio mesmo dessa pessoa. Carrega nela o mesmo nível de crueldade de tudo o que me foi revelado. Eu fui apagada como se eu nunca tivesse existido, como se eu fosse um grande monstro.

Reviso minhas interações com essa pessoa e não consigo encontrar o que eu fiz de errado, ou o sinal de que eu precisava de que essa pessoa nunca realmente se importou comigo e não consigo encontrar. Nunca saberei. E preciso dar um jeito de seguir e consertar todo esse estrago feito em mim. Talvez eu precise de um “alarme” diário me lembrando que eu sou uma mulher inteligente, bacana, carinhosa, preocupada com o mundo mais do que comigo mesma. Talvez eu precise mesmo ser lembrada constantemente que essa pessoa não pode ser a minha referência do meu caráter, não pode ser a definição dela de que eu sou um objeto, um lixo, algo descartável; preciso me lembrar sempre, a todo momento, que essa pessoa está errada, ela não pode estar certa!

Fazia tempo que eu não precisava de terapia, e agora eu preciso. Tenho estado com a saúde frágil, passei por uma cirurgia pra tirar um tumor, vivo com infecções e febre, vivo passando mal. Eu estou somatizando de novo. Tudo o que eu tinha curado em mim voltou com força máxima. E eu preciso mesmo de ajuda pra saber do meu real valor, ou eu vou continuar ficando doente. Não preciso, no entanto, de terapia pra saber que isso é o medo da rejeição concretizado, e eu sei de onde está vindo. Só não sei o que fazer para impedir que se espalhe ainda mais pela minha saúde física e mental.

Eu realmente podia jurar que nada desse tipo seria capaz de me afetar mais. Mas está afetando e eu preciso admitir isso. Será que se eu fizer o inverso e exercitar o fato de que essa pessoa sim é um objeto eu serei capaz de desprezar todo o conteúdo dessa dor que eu estou sentindo ainda? Acho que não, eu não sou assim. Mas não posso simplesmente aceitar o fato de que eu não sou uma pessoa. De que não sou preenchida por sentimentos, expectativas e pensamentos, ideias. Como eu fui me anular desse jeito?

Também é o acúmulo de assédios morais, psicológicos que eu sofri nos últimos meses. Isso mexe com a cabeça da gente e a gente pensa que não mexe, que é impenetrável, inquebrável, que tem um colete à prova de ofensas no nosso coração. Mas é isso, a conclusão é essa: não sou uma má pessoa, nem um objeto, nem peixinho dourado. Eu sou um ser humano. Eu não sou descartável. E quem precisa entender isso SOU EU. Preciso parar de me definir pelo que as pessoas me definem. É ilógico. Mas quanto mais velho a gente fica, mais cruel é sentir uma decepção.

Eu sinto que me devem isso, uma conversa, uma satisfação. Eu continuo achando. Mas isso é uma das coisas que preciso parar de achar, porque não faz parte do caráter dessa pessoa. Faz parte do meu não deixar os outros na mão, defender as pessoas nas quais acredito, mentir se necessário pra protegê-las. Preciso parar de esperar isso dos outros porque o mundo é essa selva aí. E preciso ir até o final da vida SOBREVIVENDO a isso. Às pessoas que me usam como escudo para se safarem dos próprios fantasmas, da própria personalidade, da própria hipocrisia. Eu não sou pequena. Eu sou melhor do que isso e vou me lembrar disso a partir de agora. Mais uma tentativa de cura. Vamos lá.

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