GEORGE HARRISON E PESADELOS

Por alguma razão, quando toca George Harrison, eu me lembro de você. É quando eu penso que eu realmente gostaria de te ver uma vez mais. Te conhecer um pouco mais do que eu te conheci. Assim, talvez eu fosse capaz de esquecer tudo. Mas o que só faz é lembrar de tudo. É tudo culpa do George Harrison. Ele me transporta pra um campo aberto, florido, num dia ensolarado. Ele me manda diretamente pra onde eu gostaria de estar, sentindo o que eu gostaria de sentir de verdade: liberdade.

A minha liberdade é limitada pela sociedade. Minhas palavras são cerceadas pelo politicamente correto, para o moralmente aceito. George Harrison é o cara que me leva pra exata mesma sensação que eu tinha ao passar algumas horas com você, me divertindo, esquecendo momentaneamente como a vida é difícil, como o mundo é complicado, como eu sinto fome, sede de conhecimento, como eu quero que tudo mude para melhor para todos. Isso é um puta peso na cabeça.

E curiosamente, é com o George que meus pesadelos começam. É quase estatístico, quando eu ouço “My Sweet Lord” antes de dormir, eu tenho um pesadelo. E é com você. E começa sempre como um sonho: nós dois aos risos, com música no último volume, com o vento batendo no rosto quente, fervente de cinco minutos atrás. Paramos no topo de uma montanha. Saímos do carro, subimos no teto e nos deitamos. Olhamos as estrelas. Falamos coisas inteligentes um pro outro. Dividimos pensamentos, ideias. Lembramos de histórias que gostamos de contar e contamos um ao outro. Tudo está bem, está perfeito. É uma relação simbiótica perfeita. Ninguém cobra nada de ninguém. É apenas uma incrível troca de energias que melhora tudo. Quando nos entreolhamos, no entanto, e o olhar é aprofundado um centímetro em direção às nossas almas, algo acontece.

Seu sorriso esvai-se como a fina areia do litoral, cristalizando um momento que será atirado ao chão com força, com raiva, com loucura de alguém. Um alguém que não entende você e eu. Nunca entenderia, incapaz de entender. E esse alguém sempre me confronta, sempre me culpa por toda a própria desgraça. É quando o pesadelo rouba o lugar do sonho. Eu sou levada a um poço profundo, escuro, e ouço gritos de acusação. São gritos de muito ódio. Me sinto pequena. Minúscula. O peito arde. A cabeça dói. Eu sufoco, quero respirar e não consigo. Vejo sua imagem cada vez mais distante à medida que o volume dos gritos repetidos aumenta. Num repente, sinto-me traída. Traição em uma amizade é mais grave do que uma traição de amor. Nos pesadelos, voltam à tona sensações horríveis de um passado distante, mas que nunca vai me deixar em paz. Da época em que eu não entendia o que estava errado comigo. Da época em que eu era muito só. Tão só que apenas meus pensamentos me consolavam. De quando me fechei em copas ao mundo todo. Me dá enjoo, quero vomitar, mas não consigo.

O pesadelo sempre termina assim: comigo acordando no mesmo horário que costumávamos nos despedir. E eu às vezes, confesso que, quando acordo desse pesadelo recorrente, checo o telefone. São aqueles últimos minutos que você está online. E quero gritar num áudio, quero saber o motivo de eu estar ali ainda. Por que eu ainda não fui apagada da sua vida? Por que eu estou ali, a um sinal de distância, com a comunicação aberta, mas sem comunicação? Qual o propósito. Isso tudo passa pela minha mente por cinco segundos. E eu bloqueio o telefone e tento voltar a dormir. São os meus dias mais cansativos. Os mais tristes. São os que sonho e pesadelo são unidos para detonar minha cabeça.

Ainda me sinto injustiçada. Ainda me sinto perdida. Ainda me sinto mal com tudo. Mas o que eu sinto que é pior foi ser abandonada, como se eu não passasse de uma diversão mesmo, um passatempo. Que toda essa amizade sólida, essa confiança toda, existia só dentro da minha cabeça; e aí eu percebo que estou precisando de conserto: minha autoconfiança e meu amor-próprio vão e voltam em ondas. Eu os queria comigo, permanentemente. Mas sei que isso só pode acontecer quando eu conseguir te confrontar e dizer tudo o que está engasgado. Você me deve isso, mas eu sei, nunca vai pagar. Não vou conseguir alcançar meu objetivo. E a culpa toda disso é do George Harrison.

 

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