NOTAS SOBRE AUTOESTIMA

Eu sou uma satanáries diferente mesmo: o que os satanáries em geral têm em comum além da teimosia, é uma dose altíssima de autoestima. Eu andava meio fora desse padrão ariano. Por anos, fui uma mulher que lutou para sentir-se melhor e mais confortável sob a própria pele. Até a noite passada.

Sonhei com uma mulher que me atormenta há meses com chantagens e ameaças. No sonho, ela gritava comigo e me arranhava o corpo e tentava arrancar meus cabelos. Ela bradava que eu havia roubado o coração de alguém que ela ama e que o que dava mais ódio nela é que eu estava “me fazendo de santa”, para tentar tomar-lhe um homem. Ela chorava e borrava o lápis de olho no rosto cansado, enrugado, que tenta ser jovial mas que soa mais como uma tentativa frustrada de esconder a insegurança que o peso da idade lhe causava.

O homem em questão ficava bem no meio de nós duas, com expressão de quem está apavorado de descobrir uma pessoa que ele não conhecia de verdade, versus a ansiedade de me testemunhar receber toda essa agressão. Por um lado, ele parecia dever obediência por alguma obrigação de carmas passados; por outro, o desejo de jogar tudo pro alto e dar voz pra algo diferente dentro de si. A mulher continuava a gritar e a me machucar, parecia que ela queria desfiar minha pele. Eu permanecia olhando pra ela atentamente e não revidava nenhuma agressão física. O homem me olha penalizado e indignado com as atitudes violentas de sua amada. Ela grita: “ele sabe que você tomou ele de mim, mas eu não vou deixar isso acontecer, sua piranha!” “Você é horrorosa, gorda, medonha, você deu alguma coisa pra ele beber! Ele está enfeitiçado!”

Ele se desculpa com ela e me carrega até seu carro. Me reclina no banco do passageiro e sussurra: “me perdoa por te fazer passar por isso… Você não merece ouvir nada disso. Você é linda.” Ele entra, dá a partida no carro e sai por uma estrada, rumo ao interior. E pela primeira vez me sinto segura e sei o que mereço de verdade. 

Acordo ao abraça-lo longamente. Acordo feliz. Acordo com a sensação de que eu mereço por perto quem me quer muito por perto. De que eu não sou bem-vinda ao mundo de algumas pessoas. Que grandes amizades podem desaparecer por cegueiras ou chantagens. Que eu amo e respeito pessoas que não necessariamente me amam ou me respeitam. Que brigas inúteis por medo ou ciúmes não são pra mim. Que os maus podem vencer batalhas que gostaríamos de ter vencido. Mas saí desse sonho com mais do que isso: com a autoconfiança renovada e sem medo de perder mais amigos ou pessoas. Se eu não as perdi, o tempo me traz de volta em recompensa pela minha paciência; se eu as perdi, é porque nunca foram realmente próximas como eu imaginava. Parte disso é de um pensamento romântico sobre a vida em si, acreditando que todos podem explorar capacidades, que o medo é saudável pra te desafiar, e vencer o desafio é o objetivo, que existe amizade pura, ou provocando a minha própria mente com possibilidades amorosas que são de fato românticas, mas estão longe das realidades que a vida me apresenta.

Meu amor próprio parece ter renascido. Então sem modéstia aí vai: estar do meu lado não é mesmo pra qualquer um. E preciso de gente corajosa do meu lado, eu vivo com intensidade. Gente mais fraca não aguenta com isso. Então sim, sem falsa modéstia, precisa ser muito especial pra eu ser amiga ou leal. Muito do sonho tem a ver com uma parte de realidade. Apenas uma parte, que eu ainda me questiono. E não saberei a resposta porque não perguntarei. Mas como é bom me olhar no espelho e me sentir ainda mais mulher, e melhor do que ontem…

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