BEIJOS DE VERÃO… BEIJOS ENSINAM…

Eu comecei duas frases escrevendo sobre minhas frustrações e raivas desse ano, apaguei; acho que eu gostaria mesmo é de fazer uma coisa que eu gosto muito, e que parece esquisito pra maioria das pessoas: relembrar situações que vivi, pessoas que conheci. Por um momento, resolvi fazer um flashback de quando a vida ainda era mais simples e a mente caiu no comecinho da minha adolescência.

Minha família migrou inteira para o espiritismo um dia, sem mais nem menos. Eu acompanhei o fluxo, achei interessante, fiz cursos para desenvolvimento de mediunidade, li inúmeros livros psicografados por chico Xavier… Como em tudo na vida, eu fui uma espírita nerd e aprendi tudo o que eu podia sobre o assunto. Quis criar raízes na religião. E tinha uma família dentro do lugar que eu frequentava e era volutnária que eu achava perfeita: mãe, pai, três filhos. O mais velho já tinha passado dos 21, o do meio tinha 18 e o mais novo tinha 13 anos.

Eu entrei nisso tudo quando tinha 10 anos e imediatamente, me apaixonei pela religião, porque possui um conceito que sempre me agradou: Deus não fica por aí punindo ninguém e nós somos responsáveis por aquilo que cultivamos em nossas vidas. A parte bonita diz que temos várias chances de fazer tudo certo, a reencarnação. Eu acabei tendo aquelas paixonites de criança com o filho do meio dessa família que eu admirava muito. Um dia, eu tomando notas em uma palestra – eu era a única fazendo isso – esse moço que eu adorava pegou o meu caderno, fez um desenho de uma banda de rock com um balãozinho que dizia que eu era linda e inteligente. Meu coração disparou quando eu li isso, mas eu sempre fui muito comedida nas minhas reações em público quando o assunto é homem.

O que eu não sabia era que o caçula desses três meninos era apaixonado por mim. E fiquei sem saber até um final de ano que minha família foi para o litoral ficar com uns amigos dos meus pais. Quando acabaram as férias, eu estava muito amiga da filha mais nova e acabei ficando pra trás com ela, o irmão mais velho e a empregada do apartamento. Eu nunca me achei bonita: sempre achei meu nariz feio, mihas sobrancelhas estranhas, eu lia demais, ouvia muita música, era isolada. Depois eu achava que meu corpo todo era grande demais e que nenhum menino repararia em mim. Eu me enganei e foi a melhor época da minha vida: eu tinha a certeza de que era rejeitada, e de repente, eu descobri que chamei atenção de muita gente.

Ficava na praia o dia inteiro com essa menina, e hoje eu sei, eu devia ser muito “gostosa” pra uma adolescente que tinha acabado de parar de jogar taco na rua e estudar trigonometria que nem uma louca em casa. De repente, eu tinha uma “amiga de verão” e todo dia ela me falava de um tal de Lucas, que jogava futebol todo fim de tarde na praia. Ele, segundo ela, não parava de me encarar. De noite, na sorveteria, o Márcio, um surfista loirinho, do tipo caiçara, me abordou. Na festinha do prédio, eu era rodeada de pessoas. Mas foi passeando com o cachorro da família que um dia eu dei um encontrão com aquele rapaz de 18 anos do centro espírita. O sol estava se pondo, e ele me convidou para tomar uma água de côco com ele. E finalmente aconteceu: eu beijei ele. Meu sangue estava borbulhando quando meus lábios tocaram os dele… E só. Não senti nada: nem frio no estômago, nem felicidade, ou formigamento na minha cabeça, no meu corpo… Saí do quiosque praticamente fugindo dele.

No meu último dia de praia, tinha mais uma reuniãozinha dos adolescentes, dessa vez pra um luau. Eu, tímida, fui vestida assim: biquíni por baixo de uma saia jeans e uma blusa do Tom & Jerry, e All Stars dos Looney Tunes. Eu não me sentia atraente e realmente essa não era a intenção. E eu estava tão frustrada com o beijo ruim do menino que resolvi “beber” os meus “problemas” daquela época – como tudo era mais simples, mesmo parecendo complicado. Foi o meu primeiro porre na vida, menor de idade, morena do sol, vestida como a nerd de sempre, sem ser sensual como todas as outras meninas. Aí essa minha amiga colocou um CD pra tocar. Era um CD do Roxette. A segunda música era “Crash, Boom, Bang”. Comecei a prestar atenção na letra enquanto o Márcio me tirava pra dançar. Ele foi ficando cada vez mais próximo, até cheirar o meu cabelo e sussurar no meu ouvido que ele nunca tinha estado próximo de uma menina tão cheirosa e charmosa. O beijo aconteceu ali mesmo na pista. Eu estava dançando com o surfista mais gato da praia, mais velho, 20 anos, e eu ali, uma menina, resolvendo experimentar quantos beijos eu pudesse. Foi a minha noite de vagabunda mesmo… Mas foi mágica. De repente, eu percebi que eu não precisava perseguir nada obcecada, e sim me concentrar nas oportunidades que se apresentam e com elas, atingir meus objetivos.

Quando o Márcio foi embora e eu fui no banheiro, encontrei o Lucas na saída, que me levou pra escada de incêndio do prédio e me beijou loucamente. Ele tinha 16 anos, lindo, moreno, musculoso. Não rolou sexo, só muito beijo quente e mãos deslizando pelos nossos corpos. Eu me senti febril. Depois eu encontrei o irmão da minha amiga num outro canto do condomínio, e beijei ele como se não houvesse amanhã. Mas o irmão mais velho do cara por quem eu era apaixonada apareceu. O nome dele era Ricardo. Foi quando tocou “Run to You” na festinha. Ele conhecia alguns meninos do prédio porque também jogava futebol e foi convidado. Eu estava num banco de praça, sozinha, olhando pras estrelas, ouvindo a música que dizia “I’m gonna run to you / I’m gonna count on you / I’m gonna find you / Baby what else can I do?”. Eu segurava uma garrafa de vinho ruim e quente. Ele se sentou, tirou a garrafa da minha mão e disse: “Se você não gostou do beijo do meu irmão, será que agora pode experimentar o meu?” e me beijou. Com uma das mãos ele acariciava o meu rosto durante o beijo; com a outra, segurava firme minha nuca, pelos cabelos. Foi a primeira vez que eu senti o corpo inteiro estremecer de desejo por alguém. O beijo era molhado, longo, cheio de línguas passeando pelo meu pescoço, orelha… quando ele colocava as mãos na minha cintura, eu sentia calafrios. Eu cheguei a gemer com esse beijo.

Na frente de todos, nós andávamos de mãos dadas nos meses seguintes. Às vezes, íamos pro quarteirão de trás fazer só isso: nos beijar. Eu era tão nova e quis isso logo. Eu ainda me recuperava do meu trauma de violência, mas por incrível que pareça, foi com o Ricardo que eu aprendi que nem todos os homens seriam capazes de me machucar. E aí eu conheci meu primeiro namorado de verdade. E eu gostava muito de passar tempo com ele porque os beijos eram exatamente assim. As pessoas achavam que eu estava andando com um rebelde, cabeludo, esquisito… Mas o beijo dele foi a coisa que eu mais procurei nos sete anos que se seguiram. Foi com ele que perdi minha virgindade do jeito certo, foi ele quem me ensinou a me soltar.

Era ele que me dizia no ouvido como eu era linda, exótica, inteligente, engraçada, esperta. Terminamos quando eu entrei na faculdade. Ele me traiu. Está com a mesma pessoa desde então, tem dois filhos. O Ricardo? Ele não sabe, mas ele me ensinou a abrir o coração pras coisas novas. Os outros garotos foram importantes também pra eu saber que eu posso não sentir que agrado, mas eu agrado. Meu amor próprio melhorou um pouquinho com isso tudo. E terminou de curar o que eu sentia perto dos meninos: nojo, repulsa e medo.

Beijos são muito importantes. Beijos na boca são deliciosos. Beijos molhados e apaixonados são meus favoritos, aqueles que acontecem cinco minutos antes dele te jogar no sofá, na cama, no chão e pensar na sorte que ele tem de estar ali, com você. Não sei se algum deles já pensou assim. Eu torço pra que tenham. Beijos são essenciais como água, oxigênio. Beije mais, beije muito. E sinto saudades de beijar.

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