SILÊNCIO AGUDO

Como pode ter sido possível notar, eu perdi uma pessoa. Mais uma. Mas dessa vez não foram intrigas e infantilidades que a levaram. Ela, minha melhor amiga, infelizmente foi chamada mais cedo para virar poeira de estrelas. E eu gostaria de dividir algumas coisas que eu aprendi como a passagem dela. Além disso, eu gostaria de dividir uma experiência mágica / espiritual que eu tive.

Minha amiga portava uma doença rara, mas reversível em 95% dos casos. Isso mesmo, 95 em cada 100 pessoas doentes voltam à vida normal. Ela, se encaixava nos demais pífios 5%. restantes da estatística de que se tem notícia. Depois de uma linda luta que ela travou no hospital por quatro meses, ela foi para uma cirurgia como última opção de ser salva – acometida também por uma infecção generalizada – e não resistiu.

Eu soube do horário exato do início dessa cirurgia, o pai dela me mandou uma mensagem avisando. Eu fiz um ritual simples, mas que acredito que em momentos como este, em que a probabilidade do pior acontecer ser maior do que a esperança, tenha grande valor energético para preparar alguém para a passagem. Eu acendi uma vela branca para os espíritos que a acompanhavam – ela era um misto de budista com umbandista e um pouco de espiritismo – e uma vela rosa, representando seu corpo físico. Em um pedaço de papel, escrevi um pedido: “peço para que a protejam durante a cirurgia de hoje, e, que ela possa se recuperar plenamente. Mas acima de tudo, peço para que o plano divino faça o que for melhor para que ela não sofra”.

Coloquei o pedido debaixo do candelabro, acendi um incenso de sândalo e orei por ela. Eu usei três salmos que aprendi no meu tempo de católica e de espírita. Entre cada um deles, eu pedia pela presença de entidades de que sou devota. Uma hora e meia depois do início da cirurgia, a vela rosa se apagou. Eu apaguei as luzes e falei “vai com Deus, amiga.” Imediatamente comecei a chorar. Foi um choro de desespero de saber que ela não estava mais entre nós. Meus sonhos de despedida desse plano nunca erraram, e isso eu considero uma maldição, não um dom.

Mais uma hora e meia se passou e a minha outra melhor amiga – sim, EU TENHO mais de uma melhor amiga, sinal de que eu não posso ser uma pessoa tão má assim – me ligou para contar da passagem da minha estrela. Foi tudo tão surreal… Mas eu tive o meu momento de despedida com ela espiritual. Acredito que ela tenha me tocado no momento que partiu. E o mais louco disso é que muitas pessoas sentiram a mesma coisa, no mesmo horário, sem ainda saber a notícia por um familiar que estivesse acompanhando tudo.

Passou-se um momento de silêncio agudo: não ouvi carros na rua, meus bichos correndo pela casa, a televisão ligada, a voz do outro lado da linha. Tudo havia sumido. A real sensação de não ter chão foi assustadora, de novo. Eu perdi um pedaço de mim. E esse silêncio agudo da perda me deu, mais uma vez, a real noção de que a vida deve ser vivida sem arrependimentos, mesmo. E eu revisei minha vida. Não me arrependo de nada do que eu fiz pra ser feliz ou ter momentos felizes. Minhas memórias são mais boas do que ruins quando coloco numa balança. A vida é feita disso.

Eu olho pras minhas paredes e vejo coisas incríveis que fizemos juntas. Estão todas penduradas, como troféus. E eu venci muitas vezes do lado dela, minhas paredes provam.

Sabe o que é você trabalhar com a sua melhor amiga fazendo o que as duas mais amam? É isso, e é foda e é raro de conseguir. Muita coisa boa junta. E eu tive o privilégio de viver isso por bastante tempo com ela, por sete breves anos. Eu fui e eu sou feliz, eu faço o que eu amo sim! Eu olho pros meus pequenos feiticeiros e fico orgulhosa de ter ajudado eles a serem profissionais excelentes. Somos os magos do palco. E essa profissão é uma das mais bonitas do mundo: a gente doa o corpo e a alma pra deixar um momento de felicidade plena perfeito. Show é uma arte! E eu sou romântica ao extremo na minha profissão. Ouvir um acorde, a multidão gritar e o corpo inteiro da gente ficando arrepiado. Foi o que minha melhor amiga, que agora está lá do outro lado, me proporcionou.

Sejamos mais vivos, menos zumbis desse mundo. A gente abaixa a cabeça demais e segue demais as convenções e opiniões alheias. Tenha a sua opinião própria, custe o que custar. Tenha voz. Paremos de ter comportamento passivo-agressivo. Não sejamos tão hipócritas, tão dissimulados. Sejamos mais nós mesmos, sem medo do que vão pensar. Só assim poderemos viver plenamente. Fazer uma passagem tranquila. Pra ela, eu tenho certeza de que foi assim. E eu quero mais é viver! Que delícia é estar vivo!

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s