EXERCÍCIO MENTAL: A VIDA IDEAL

Hoje eu fiz um exercício mental. É difícil descrever as coisas que eu sinto quando realizo esse exercício. É quase um estado de nirvana ou uma tentativa de ficar “online” lá no fundo da mente, onde ninguém encontra a gente. Assisti uma coisa na televisão que me despertou a vontade de refazer esse exercício, que é descobrir o quão profunda ficou uma das minhas feridas emocionais. Descobri que, entre mortos e feridos, eu pelo menos me salvei, ou tenho um forte desejo de me salvar.

Comecei a pensar nas coisas que mais desejo na vida. Uma linda imagem me veio à cabeça, e eu tenho sonhado em parte com ela todas as noites. Começou a ficar mais clara pra mim nas últimas horas. Me lembrei de uma sensação extrema de paz que alcancei algumas vezes, em ocasiões completamente diferentes: em uma, era noite no interior da cidade, eu estava em um cômodo de uma pequena casa, com um grupo de ayahuasca. Quando me deitei naquele chão frio, embriagada de vinho das almas, fechei meus olhos levemente e fui transportada pra alguma coisa que um cristão chamaria de “paraíso” e conheci o que pode ser considerado como Deus. Eu lembro do calor da sala, da música alta, da pressão do meu corpo sobre um colchonete, fino, rasgado, eu sentia os ossos batendo no cimento e, num repente, eu sentia o meu corpo fresco, sentia cheiro de flores de jardim, sentia cheiro de orvalho, sentia as cores de um arco-íris que se desenhava no céu. Isso pra mim foi conhecer Deus. Eu fiquei em contato com alguma forma de energia pura, limpa, que me enchia de felicidade, ansiedade, desejo, como se um leque multidimensional me sugasse e eu pudesse enxergar e sentir coisas como esperança, fé, beleza…

Na segunda ocasião, eu não estava sob efeito de substância alguma. Eu estava no interior, de novo, dessa vez em uma casa de campo, do amigo do meu amigo. Fomos tomar “uns tragos” por algumas horas, comer uma costela. Dormimos lá por dois dias e eu nunca tive tanta vontade de permanecer pra sempre no mesmo lugar. É uma casa no alto de um morro, feita de alvenaria e tijolos, decorada com garrafas de uísque, uma sala com uma vitrola e mais de mil discos de vinil. Uma cozinha arejada, de forno a lenha. Um balanço decorado de flores. Quartos frios, mas pessoais, limpos, em que a luz do sol penetrava e deixava tudo ainda mais rústico. Com um deck, piscina e uma vista incrível por entre todas as flores e as pesadas portas do jardim; esse momento de paz veio depois de sentar na ponta do deck, com um copo de água na mão, assistindo ao pôr-do-sol sozinha, enquanto as pessoas cozinhavam, faziam café e riam dentro da casa. Eu respirava fundo e aí, tudo o que eu sentia no ritual de ayahuasca eu podia sentir também, e ver com os meus olhos a natureza, pensar na imensidão do universo, no vento gelado do início da noite arrepiando o corpo, a água fresca que descia pela garganta. O som típico de uma vitrola com uma música country triste no fundo. Bucólico, rústico, selvagem. Tudo tão parecido com o que eu devo ser.

E aí eu senti esse momento de paz, pela terceira vez hoje, durante meu exercício mental. Me imaginei tendo o que desejo, aqui mesmo, na cidade grande. Me lembrei de como eu sorrio no banco de trás, da frente ou do motorista, observando as pessoas vivendo suas vidas, o som das buzinas. Abaixar a janela do carro e sentir a brisa fria ou o vento quente das primeiras noites de primavera. Olhar para as estrelas e a lua, cheia, grande, brilhante. Me imaginei dentro de um galpão grande, confortável, todo feito de tijolos. Em uma ponta, estava um jipe coberto por uma lona escura. As paredes eram pintadas de branco e levemente descascadas, dando um ar charmoso. O ambiente é amplo, fresco. Móveis feitos de pallets de bebidas, rústicos. Garrafas com líquidos coloridos são vasos de flores. Castiçais de ferro em formato de lua, um altar para os meus deuses, imagens, crenças. Um baralho de tarô e uma taça vermelha, cheia de champagne rosé. Tambores de óleo coloridos são como mesas de centro, de canto… Uma televisão enorme presa na parece. Quadros modernistas e fotos, surrealismo, tudo em perfeita harmonia. Uma música também sai de uma vitrola. Rolling Stones está no ar, com “Painting Black”. Uma mesa de jantar de ferro preta, balcões antigos para cozinhar, miniaturas de carros antigos, Marilyn Monroe no banheiro. Uma banheira dos anos 50. uma estante que vai ate o teto de livros. Outra de música, uma de filmes em DVD, só pra exibir. Gramofones, retrovisores de pickups antigas, faróis como luminárias nas paredes. No fundo do galpão, uma cabeceira de madeira-de-lei cuidadosamente esculpida e uma cama baixa, com um futton enorme preto, lençóis frescos, travesseiros cheirosos. Um home office ao lado. Uma tela enorme e um teclado macio, para escrever tudo o mais que eu sonhar. Senti que tudo isso pode ser meu, com direito a um jardim na parte externa. Uma churrasqueira e um defumador. Uma horta. Uma mesa de pic-nic. Minha própria pinga com mel. Teria jeito de campo com cheiro de praia e orvalho da noite. Teria alecrim no meu quintal. Meu cachorro correria por todo o galpão feliz e teria sua própria cama king size. Mas ele poderia vir dormir comigo na madrugada.

Eu receberia amigos para jantar o que eu cozinho e, modéstia à parte, eu cozinho bem. Beberia vinho. Deixaria a luz entrar pelas janelas industriais do galpão, iluminando tudo de dia. Teria meu próprio deck. Acordaria de regata de malha e short de cetim. Enfiaria um pijama de gueixa e tomaria uma ducha fresca. Comeria saudável. Ouviria metal, indie rock, rockabilly. É, eu ainda posso ser muito feliz fazendo o que eu gosto. Se eu tenho essa imagem dentro de mim, é porque eu sou capaz de conseguir isso tudo. Bucólico, rústico, selvagem e urbano. Aí sim eu estarei completa. O que eu sinto é que eu desejo meu lar. Só isso no momento.

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