FOI ÉPICO: A AVENIDA VAZIA

Às 0h45, Beatriz alcança o cigarro de maconha, que está próximo no criado-mudo, ao lado do seu punhal em forma de dragão, sua garrafa de água e seu café gelado que tentou tomar mais cedo. Fuma um pouco, uma, duas tragadas, apaga. Nua, deita-se na cama com frio. Toma a garrafa inteira de água, virando de uma só vez. Pega seu celular, segura entre as mãos e fecha os olhos; dentro de si, os pensamentos se forma, involuntariamente:

“Nunca tirei uma foto com ele. Nunca tirei uma foto dele. Tenho essa aqui, dele de perfil, que coloquei pra identificá-lo, caso um dia me ligue. Estou com frio.”

Veste um abrigo, aconchega-se sob o cobertor. A maquiagem está borrada, mas está com preguiça demais de remover. Do laptop, sons de sua playlist ecoam pelo quarto iluminado por velas colorias: azul, amarela, branca, preta, rosa, vermelha… Quando aquieta o corpo, o cheiro do incenso de jasmim a convida para continuar sua linha de pensamento.

“Será que eu tinha laços? Será que eu tinha sentimentos? Por quê dói tanto?” Por dois anos, pelo menos uma vez por semana o via. A boca dele lhe dava sede, mas os olhos a encorajavam a ir aonde mulher nenhuma havia chegado: à conversa pura e simples, por conversar, desabafar, aliviar a pressão.

Os olhos dela gostavam muito dos olhos castanhos que a acompanhavam, vez ou outra, sem que percebesse. Mas desconfiava. Havia notado, já há algum tempo, que ele lhe sorria com os olhos, mesmo que sua boca jamais verbalizasse ou expressasse um o que confirmasse algo; e a boca escondia o sorriso em si. Lindo, alegre, ansioso. Dele saía um cheiro de algo que se parecia com alegria; uma fragrância levemente amadeirada, discreta, mas marcante.

Tão marcante era que a relaxava e excitava ao mesmo tempo. De olhos fechados, Beatriz treme ao pensar na velocidade mínima, com tudo acontecendo na velocidade máxima. Lembrou-se de quando batia a porta na madrugada fria e ele se oferecia para aquecê-la, fosse da forma que fosse. Sentiu o mundo girar, zonza da maconha. Lembrou-se de toda a intensidade: “tudo foi tão foda… Certeza que ele não se preocupava comigo? Será mesmo que meus suspiros meu brilho assustador dos olhos foram suficientes para tonar isso épico? Qual a razão? Por quê raios não aconteceu nada diferente de épico? Sempre foi épico.” Pensou no que era épico normalmente; eram histórias de heróis, histórias incríveis, praticamente sobrenaturais. Esse é o verdadeiro significado de épico. E concordou consigo: “É, foi tudo MUITO épico”.

Na cama, ainda estava uma revista com a qual a presenteou; agora, não consegue coloca-la de lado. Bêbada, louca, agora sente calor. Pega a revista em suas mãos. Folheia como quem busca algum tipo de explicação. Lembra-se da conversa que antecedeu a entrega da revista, lembra-se da primeira conversa sincera, das demais que se seguiram. Lembra-se das mãos grandes, de dedos longos, que fazia coisas épicas, ao mesmo tempo, mas também a acariciava os cabelos, as coxas. Saiu para caminhar depois das 3 da manhã, se vestindo com pressa. Não se sentia bem, o mundo estava girando, mas ela precisava caminhar. Caminhou pelo tempo que pôde. Conseguiu chegar à avenida atrás de sua casa. Estava deserta, intimidante. E estava triste, e ela notou. Sentou-se na sarjeta e pôs-se a chorar.

Não era o choro desesperado, não era o choro manhoso; eram apenas lágrimas escorrendo. Com vergonha, encolhe-se, coloca as mãos sobre a cabeça. Reflete sobre tudo, sobre a velocidade mínima, depois a máxima, as mãos, as coxas, os olhos que riem com ela. As lágrimas caem em maior volume de seu rosto agora.

Ninguém a incomoda. Não tem ninguém ali. Alguns carros passam, com pessoas felizes, pra lá e pra cá, de faróis altos. Ela enxuga as lágrimas, levanta-se e caminha agora de volta pra casa. As lágrimas insistem em sair agora, de todas as formas. Sente-se pequena, por baixo, triste. Um táxi passa por ela devagar: “vai pra algum lugar, moça?” Ela não responde, mas pensa: “provavelmente pro inferno”. Mas quando abre a porta e desce as escadas, se segurando nas paredes, pensa que não vai pro inferno coisa nenhuma. Nem pro paraíso, ou pro purgatório. Pensa que vai voltar a ser o que sempre foi, poeira de estrelas, alguma espécie de fluido que vai levar a matéria pelo espaço. Dessa vez, na velocidade máxima.

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