NOTAS SOBRE SAUDADES

A saudade é igual ao amor. Ela é inconveniente, cheia de espinhos, chega sem avisar. Às vezes fria, às vezes ferve, forma bolhas no fundo do coração. Eu peço todos os dias para parar de sentir saudades. Queria simplesmente apertar um botão no coração pra desligar as emoções que ficam passeando por ele, circulando pelo corpo, na corrente sanguínea.

Saudades das conversas na madrugada; as bobagens que a gente fala, as risadas contidas pra ninguém acordar. Saudades de receber elogios, de ouvir histórias de vida, das suas profissões anteriores. Das aulas sobre todos os carros antigos nacionais. Dos planos pra arrumar a sua moto.

Tenho saudades de ouvir você reclamando da vida, da conta no banco, da crise financeira, da concorrência. Saudades de mostrar alguma “arte” que eu fiz e você me elogiar. Saudades das minhas confissões sem julgamentos. De rodar no meio da madrugada rindo, curtindo a noite, do banco da frente.

Saudades de encostar no seu ombro e cochilar no caminho. De ganhar um beijo na testa ou um abraço apertado. Do seu topete perdendo os cabelos, dos seus cabelos brancos raros e de você dizendo “que está velho demais, é todo tiozinho”. Saudades de dividir uma bala, um pão de queijo, um temaki, um cachorro-quente que seja. Dos cafezinhos espertos na padaria.

Sinto falta de voltar pra casa com você, de sair de casa com você. Saudades de saber que tínhamos um segredo. Saudade do segredo. Falta de bater na sua mão quando você rói as unhas. De me mandar áudios com músicas que você está ouvindo. De cantar junto. De discutir política, feminismo, moral, ética. Saudade de você questionando o que eu escrevo. Saudades de ter um amigo de verdade.

Eu espero que a saudade pare de vir acompanhada de lágrimas. Eu sinto verdadeiramente a falta que o meu melhor amigo me faz. E vai ser meu melhor amigo mesmo sem nunca mais falar comigo. É pior que um affair, um caso de amor, porque significava que alguém por aí pensava e lembrava de mim. E se preocupava genuinamente comigo.

Você foi a única pessoa pra quem eu dei esse endereço. Você foi o responsável por eu criar isso daqui. Você alias, nem deve ler mais as coisas que eu escrevo. Deve ser o sexto sentido – que você não acredita, sabendo que sua amiga aqui ia precisar disso pra não ficar tão triste. Aliás, eu não sabia que eu ia ficar tão triste assim. Eu juro que achava que seria menos patético pra mim. Jurava que eu tinha um orgulho maior do que a saudade ou os laços que achei que criei. Deve ser sido mais fácil pra você do que tá sendo pra mim.

Você sabe como me encontrar. E eu espero que um dia, me reencontre, porque foram coisas muito pequenas que fez você tão grande pra mim. Amigos precisam de coisas pequenas, não de grandes gestos. E eu sinto uma saudade ridiculamente grande do meu amigo.

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