FINGINDO DEMÊNCIA

É engraçado como a gente não percebe, mas a astrologia está no nossa rotina. Às vezes temos uma sinergia com pessoas que jamais esperamos ter. Resolvi inaugurar uma sessão mais leve nesse blog, contando algumas das minhas experiências pessoais, trapalhadas e bobagens pra divertir (ou entediar ainda mais) meus 6 leitores…rs.

Pois bem, essa é uma história de amizade improvável. Eu conheci o rapaz, hoje, um dos meus amigos mais queridos, numa “festinha” pra qual eu fui convidada de última hora. Eu estava super apaixonada pelo meu atual namorado e ele me mandou uma mensagem de texto bêbado, me chamando pra participar de uma reunião de amigos dele. Eu, que queria estar perto dele a todo custo, me troquei à 1 da manhã e peguei um táxi para a cidade vizinha.

Cheguei na antiga casa dele, que estava em reforma e ele estava completamente chapado debaixo da mesa rindo. Eu já estava me arrependendo de ter gasto uma fortuna de táxi pra ir até lá, quando comecei a conversar com os amigos dele – eu era a única garota, pra variar. Esse amigo em particular – que virou o meu bródi Fifi, me pareceu bem mauricinho, um babaca na verdade. Fazia piadas machistas, metido a palhaço, aparecido. Um ariano reconhece quando tem um sagitariano na parada, dito e feito!

Esse cara não bateu o santo com o meu logo de cara. Fomos “inimigos” por um bom tempo, especialmente quando eu comecei a namorar e tomar o tempo que ele tinha com o melhor amigo dele. Esse sujeito teve a audácia de dizer que eu não era “compatível” com o meu namorado. Meu namorado na época era modelo, ele parava qualquer lugar por onde ele passava, todas as mulheres – EU DISSE TODAS – olhavam pra ele com admiração e desespero, de tão lindo.

Anos mais tarde, recebemos um convite para um showcase desse menino – ele era aspirante a cantor. Como eu trabalho com música, meu namorado pediu pelo amor de Deus pra eu aparecer e avaliar o sujeito. Eu, que tava com ele engasgada há pelo menos um ano, fiz um doce do caralho pra resolver ir. Fomos. O cara não cantava mal, na verdade, tinha uma voz linda. E tenho que admitir, é um dos meus amigos mais bonitos – adoro andar perto de gente bonita, faz eu me sentir bonita também. No final do showcase, ele veio com aquela cara de tonto me perguntar o que eu tinha achado.

– Acho que você tem um problema sério com construção de imagem. Se você quer minha opinião sincera, acho sua calça justa demais, suas roupas bregas demais, seu corte de cabelo tá péssimo. Pra um cara bonito, você tá brega. Precisa trabalhar sua imagem.

– Tudo bem, você me ajuda?

Para tudo. Foi aí que a gente finalmente começou a se dar bem. Eu tenho uma série de desventuras pra contar na companhia desse maluco, mas hoje eu conto uma em particular: o dia que fomos a uma gravação de um reality show em outro estado e ele quase vomitou de nervoso.

Ele se inscreveu num reality show de música, tipo um show de calouros mais elaborado. O que ninguém sabe é que a selfie que ele mandou pra emissora foi tirada no banheiro, enquanto ele estava cagando. Pois é, minha gente, esse é meu bródi.

Ele passou na preleção… Faltava uma audição final pra ele entrar de vez no programa. A emissora marcou uma audição ao vivo, com os jurados em um show, em outro estado, na puta que o pariu. Tudo bem: reservamos passagens de avião e o hotel, ele praticou um monte a música, a performance, escolhemos a roupa que ele ia usar, tava tudo indo muito bem. Mas tínhamos voos em dias diferentes, porque um dia antes, tivemos um show em outro lugar tipo “onde Judas perdeu as botas” – esse show eu conto em outra oportunidade. Por causa da chuva, ele pegou um resfriado violento e a garganta dele fechou, mas ele não me contou nada pra não me preocupar.

Aí eu vou pro aeroporto, pego o avião, chego na casa do cacete e ligo pra ele:

– Bom dia, flor do dia! Cheguei! Já estou a caminho do hotel, em uns vinte minutos eu chego aí…

– Grrrhhhbleeeeghr…

– Que foi, cara? Que voz é essa?

– Eu tou sem voz… Fodeu, fodeu, fodeu…

– Calma, eu tou chegando pra te socorrer!

Cheguei no hotel, paguei o taxista, atravessei a rua e corri numa farmácia. Comprei um de cada coisa que tinha pra melhorar a garganta dele: pastilha, descongestionante, xarope… A gente tava levando a sério a participação dele no tal programa (mesmo ele tendo mandado uma selfie cagando pro programa, LITERALMENTE né?) e eu fiquei realmente preocupada.

Lá, conhecemos vários participantes. Mas o meu amigo era o único com uma “torcida de uma pessoa só”: euzinha. Todo mundo alugou van, micro ônibus e levou família, amigos, papagaio, namorados e namoradas… A gente tava ali meio que “forever alone”. A produtora da emissora – hoje muito amiga nossa também – começou a passar agenda, e esse infeliz passando mal, meio febril, desesperado. Ele cumpriu a rodada de entrevistas e coisas que os produtores mandaram ele fazer.

No meio da tarde, tinha a passagem de som. Fomos numa van com os outros concorrentes pro local onde seria o show. Lá, descobri que a faixa do playback dele tinha dado “pau” e eu corri pra consertar – tinha que ser aquela mula mesmo pra me ferrar aos 45 do segundo tempo. Salvei a faixa de tudo que foi jeito: aberta, fechada, em mp3, mp4, mpeg, o caralho todo. Vários CDs, pendrives, etc. Quando ele estava dando a milionésima entrevista, eu passei por ele e fiz um sinal de OK. Ele fez uma puta cara de alívio.

Passamos o som e voltamos para o hotel. Lá, uma confusão estava meio que armada: o local do show e da audição / gravação do episódio do reality show havia sido lacrado minutos depois que saímos. Eu mandei ele descansar e fiquei pescando as conversas. Fui pro meu quarto, meu estômago ficava dando voltas, afinal, aquela parecia uma boa chance dele deslanchar na carreira. Desci no lobby e descobri que tudo poderia ser cancelado.

O sagitariano é um verdadeiro babaca. Faz piada mesmo quando o assunto é sério. Combinamos de nos encontrarmos pra comer algo antes de sairmos, porque a emissora já tinha um plano B em andamento. Entrei no elevador. Logo depois, ele entra também:

– E aí cara, melhorou a voz?

– Tá melhorando (solta um pigarro violento)…

– Eu tava ouvindo as conversas, o pessoal da produção estava bem exaltado lá embaixo…

– É, eu sei, eu entrei no elevador com dois deles discutindo, mas eu fingi demência fortemente.

Não sei o motivo, mas o jeito que ele falou “fingi demência” foi tão ridículo que desatamos a rir compulsivamente. Porque ele normalmente “finge demência” mesmo quando quer mudar de assunto ou disfarçar que está ouvindo a conversa alheia; ele se faz de desentendido. Começamos a discutir sobre como e quem finge demência no nosso dia-a-dia. A primeira pessoa lembrada, obviamente, foi o melhor amigo dele, meu namorado. E várias outras pessoas: o pai dele, meu pai, os nossos outros amigos em comum.

São coisas bestas assim que fortalecem uma amizade: as “piadas internas”. Vocês nunca vão entender o impacto de cada vez que ele me fala que fingiu demência sobre determinado assunto.

Bom, fomos até o local do show. Eu, que sempre fui contra ele beber antes de cantar, o vi tão nervoso que dei umas doses de vodca pra ele tentar se acalmar. Era uma seleção cheia de torcida local, com jurados que intimidavam pelo poder de influência deles. E um deles, um famoso compositor, que inclusive deu uma música que era pra ser do Fábio Jr. pro meu amigo, estava lá e era o mais difícil de convencer.

Meu bródi já estava alcoolizado, mas a voz tava ruim de sair e a vez dele estava chegando. Eu tava num desespero tão grande que até Reiki eu apliquei nele no meio da porcaria da balada / gravação. Na vez dele, um grupo de torcedores de outros concorrentes resolveu ajudar:

– Vamos torcer pra ele entrar na seleção final também!

Lá foi ele pro palco. Ele é altão – adoro homens altos! – e quase bateu a cabeça na iluminação daquele palquinho tosco. E soltaram o playback… E lá foi ele. A voz estava meio esganiçada e eu tinha vontade de vomitar, nota a nota que ele cantava…

Quando ele saiu do palco, peguei uns feedbacks, estávamos chateados com a voz prejudicada por um show na chuva na casa do cacete – mas que foi MEGA divertido. Como é praxe nosso, após as decepções do dia, aproveitamos o open bar e caímos de boca em todos os itens alcoólicos oferecidos. Lembro que, quando voltamos, deitamos na cama dele e ficamos falando sobre o conceito mais elaborado de fingir demência. Por quê fingimos demência? Do que estamos nos escondendo atrás desse fingimento? Exemplificamos com situações corriqueiras.

No dia seguinte, fomos comer churrasco no boteco da frente do hotel. Tinha uma dupla de moda tocando ao vivo: viola e harpa. Isso mesmo, harpa!

– É por essas experiências que a gente vive no final né? – perguntei.

– Onde mais a gente vai encontrar um negócio desse rolando em pleno dia útil, na hora do almoço?

– Moço, toca uma pra gente?

E eles tocaram. Engraçado, horas depois a voz dele voltou com força total. Pode ter sido uma autossabotagem inconsciente.

Nas semanas que se seguiram, ficamos super na expectativa. E no dia do estúdio, de gravarmos os selecionados, ele foi o primeiro a ser chamado. Eu estava na plateia, e ele correu chorando pra me abraçar.

– Obrigado por acreditar em mim, sempre.

A parte engraçada é que ele foi o segundo eliminado do programa, contra uma patricinha mega escrota, que cantava mal, por uma diferença de algumas dezenas de votos – era por votação popular. Mas vocês sabem, né: a gente fingiu demência e continuou tocando nosso puteiro musical. E, de acordo com a nossa conversa de hoje, em breve reviveremos esses momentos divertidos.

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