NÃO SOU UMA DESSAS

Uma coisa você, que me lê, precisa saber sobre e mim: eu tenho quedas por obras inspiradas em autobiografia ou autobiografias propriamente ditas. Dito isso, ficam claras algumas das mulheres que eu gosto de ler (Clara Averbuck, Elizabeth Wurtzel, Lena Dunham), de assistir (Iliza Shlesinger, Amy Schumer, Julia Louis Dreyfus) ou de me deixar inspirar.

Não posso ser hipócrita com meus leitores raros. Eu sou uma mulher insegura, logo, como todas as demais mulheres, precisamos de outras que nos inspirem e nos façam pensar coisas do tipo “aquela vaca é incrível”. E outra, não é porque eu sei juntar uma palavra depois da outra que sou exímia escritora profissional. E aí entra “Não Sou Uma Dessas”. Esse livro é completamente autobiográfico e honesto, tão honesto que uma pessoa considerada de inteligência comum não consegue compreender a profundidade da abertura de Lena nas páginas que escreveu.

Ela é ácida, não se esconde atrás de experiências traumáticas, transformando a peça toda em um drama mexicano. Eu ri muito com vários dos relatos dela. Em vários outros, eu ficava pensando “quem nunca?” e aí realizo: somos poucas as que vivem a história de suas vidas. Eu já vivi tantas…

Ontem, falando sozinha no meu quintal de filme de terror, fiquei pensando em como seria escrever e conviver com uma autobiografia. Em como ela soaria pras pessoas que lessem… Eu seria considerada uma desajustada ou eu só vivo os mesmos dilemas de todo ser humano normal? Eu seria queimada viva em praça pública ou seria admirada pela minha coragem? Sobre o quê eu poderia escrever?

Eu poderia contar como eu aprendi inglês sozinha, como seis alemães moraram na minha casa, com meus pais e irmãos por quase um mês, como eu adorava jogar videogame e andar de carro com o meu pai, ou das vezes que eu visitava a minha avó paterna no sanatório… Posso contar do ódio e do ciúme que eu tive do meu irmão e como eu fiquei ansiosa pra cuidar da minha irmã caçula. Talvez eu falasse um pouco da babunha, dos meus primos que saíram do armário e dos que se mataram. Do medo que eu tenho de ficar sozinha pra sempre e maluca que nem esse povo. Do pavor que eu tenho da hora da minha morte. Será que isso seria interessante misturar com minhas experiências amorosas frustradas, junto com as muito bem sucedidas e meus dramas existenciais do colegial técnico e da faculdade? E se juntar meu casamento, a minha cachorrinha e minha super história de teoria da conspiração política? Todos os meus empregos malucos. E as coisas que aconteceram nesses empregos, como eu conheci vários dos meus ídolos da música…

Eu tenho bastante pra dizer. Não tenho uma história regular, “normal”. Acho que, por mais que eu nunca emburreça como às vezes eu desejo tanto que aconteça pra eu me sentir normal, eu tenho um certo orgulho em viver as minhas histórias. Mentira, eu tenho um puta orgulho. As palavras que eu escrevo são uma forma de registrar toda essa montanha-russa de sentimentos bons e ruins, minhas vitórias e derrotas, as ofensas e os elogios. Tem sentimentos e coisas que já são passado, mas são interessantes de serem lembradas.

Lena Dunham faz isso com imensa maestria. Ela é mais nova que eu e escreve como uma mulher experiente, uma “pantera” digamos assim. Ela é tão nova e já viveu tanta coisa. Eu me identifico com tantas experiências desastrosas pelas quais ela passou e partilho das mesmas opiniões sobe uma série de assuntos. Achei particularmente hilário o capítulo sobre as experimentações homoafetivas dela e sobre como ela enxerga a irmã caçula, mas gosto mesmo é do feminismo discreto dela.

Vi muita gente criticando certas passagens do livro, como a descrição daquela fase da infância que a criança começa a tocar e sentir o próprio corpo, mesmo sem nunca ter ouvido falar de masturbação. As pessoas se chocaram. Como se chocaram com o assédio do professor ou como ela acha que aconteceu. As pessoas não podem entrar na cabeça de quem está escrevendo.

E eu vi várias das histórias de Lena em Hannah. Vários dos diálogos que ela replica no livro com suas amigas parecem conversas que ela teve com Marnie, Jessa e Shoshanna. Ela é tão verdadeira que não se importa se as pessoas se chocam. É a verdade dela ali, nem que parcialmente na televisão (e inteiramente no livro), mas eu conseguia imaginar a Lena passando pelas situações que ela descreve.

“Não Sou Uma Dessas” não é um livro de autoajuda, as pessoas também confundem isso. Apesar de ótimos aprendizados, os relatos autobiograficos de Lena são de uma mulher que me parece com todas as outras, mas com uma ótica muito particular dos acontecimentos em sua vida. É gostoso se ver refletida em páginas de um livro e não se sentir sozinha no mundo.

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