O COLO DA MINHA MÃE

Tem horas que eu só queria o colo da minha mãe.

Não queria mais ter tanta necessidade de ter amigos, de ter mil parentes, de ter nada. A semana passou, outra entrou e eu continuo sendo descartável, dessa vez por quem eu menos esperava – mas deveria, já que não é a primeira vez que isso acontece. As pessoas me ofendem, me acusam e me magoam e não fazem a mínima questão de pensar em mim. Fico achando que eu só sirvo quando é interessante, quando eu pareço misteriosa, quando eu tenho uma carta na manga. Fora disso, eu só sou mais uma otária por onde as pessoas passam pisando, tipo um tapete.

Toda hora a vida fica me dando facada nas costas e eu tou é mesmo cansada. Não aguento mais chorar pelas mesmas coisas. Não aguento mais ser feita de trouxa. Eu sinto que estou num looping de coisas ruins. Fico revisitando todas as minhas atitudes e não consigo encontrar um ponto comum pra eu ser tida como um objeto por todo mundo. Eu, que vivo colocando minha família em primeiro lugar, tomo uma porrada no meio da cara justamente dela.

Acho que não basta se esforçar na vida. Estou perdendo a fé nisso. Quem leva a melhor é quem não estuda, é quem se encosta, é quem suga as demais pessoas, é o famoso truqueiro. Eles colocam um sorriso no rosto, gritam na sua cara, se fazem de vítimas e pronto, a vida tá ganha. Nem pra ter uma relação de simbiose, de uso mútuo, eu sou capaz de ter. Na hora de eu defender as pessoas, eu saio correndo armada de bons argumentos, mesmo que a pessoa a quem eu defendo esteja 1000% errada. O que eu ganho com isso? Quem tá na minha retaguarda, me defendendo? Quem se coloca na frente da “bala”? Quem me ajuda a “esconder o corpo”? Eu não tenho ninguém que é de fato meu cúmplice nessa vida. Mas eu sou a cúmplice perfeita pra muita gente: sem muitas perguntas, compreensiva, queridinha.

Eu já estava aqui sofrendo em silêncio, não contei nada dos meus problemas pra ninguém, a não ser pro meu pai. Aí cai mais uma bomba na minha cabeça. As pessoas invertem tudo. Ao invés de se desculparem comigo pelo erro cometido, ameaçam de sair da minha vida. Já não saiu gente o suficiente da minha vida? Na verdade, eu já não saí o suficiente da vida das outras pessoas, humilhada ainda por cima, pela porta dos fundos, como se eu não significasse nada? Tem que vir logo um dos meus apoios na vida pra me magoar, me ofender, ameaçar de partir.

Se você, caro leitor, soubesse como uma mãe me faz falta nessas horas, pra deitar no colo dela e ela me dizer que vai ficar tudo bem… Que eu não mereço nada disso, que ela sabe como eu sou batalhadora, que sabe como me educou, que conhece minha índole…

No geral, as pessoas respeitam os que ganham mesmo tudo na base do grito. Pois bem, mais uma derrota pra ficar me assombrando a cabeça. Depois dos trinta, achei que esse tipo de coisa aconteceria no meu ambiente de trabalho só. Não dentro da MINHA CASA. Não no seio da minha família. Eu já me arrisquei tanto pelos meus familiares. Já quase perdi minha carreira, perdi muitos amigos pra defender meu sangue. Mas ninguém lembra. Ninguém na verdade dá a mínima quando vem apontando o dedo pra mim. Não se dão nem ao trabalho de conferir a informação.

Pra minha sorte, eu não sou fraca e nem tenho tendências suicidas. Mas essas coisas só me fecham em copas ainda mais pro mundo. Vou viver mais de aparência e menos de verdade. Mais de cabeça e menos, bem menos de coração. No dia que conhecerem a Satanáries gelada, aí vão entender. A pragmática, a que toca o foda-se pra opinião das pessoas, pra essência de cada um, pra capacidade e o potencial dos outros. Menos generosidade, mais agressividade, é isso que faz o ser humano vencedor, aparentemente. Aliás, comportamento psicopata tá na moda né: empatia zero, sucesso mil.

Uma bruxa jamais pode ser egoísta. Mas eu PRECISO ser mais egoísta se eu não quiser terminar despedaçada por quem fere sem se importar com os impactos que certas palavras e gestos causam. Não é bonito virem me falar que eu devia ter morrido no lugar da minha mãe. Eu não fiz nada pra merecer ouvir isso. Quanto mais eu quero ser generosa, pensar no próximo, mais eu me afasto dessa realidade. É óbvio que eu preferia minha mãe viva a mim mesma, mas não foi assim que aconteceu. Essa é a terceira vez que eu ouço isso de alguém como quem diz “vou ali na padaria e já volto”, como uma constatação.

Será que eu sou uma pessoa tão desprezível a ponto da minha vida, do meu esforço e das minhas atitudes não valerem absolutamente nada? Ainda bem que eu criei esse espaço bem em tempo de poder desabafar.

Quando eu penso nela viva, eu me lembro que, apesar de todos os moralismos, só ela era capaz de me acalmar. Meu pai não possui esse viés. Ele fica querendo te fazer pensar, até dói mais. Queria correr pra loira linda, de olhos verdes e sorriso fácil, chorando, e contar tudo o que tem acontecido nos últimos treze anos. Em como a vida tem me tratado. Em como as pessoas têm me tratado. “Jacaré, se acalma, você é linda por dentro e por fora”, ela sempre falava. “Eu criei você, bruxa, pra ser feliz”. “Se ninguém mais te amar ou se todo mundo te maltratar, eu tou aqui, Museu”.

Aliás, perder a minha velha foi a maior injustiça de todas que eu já sofri. Ela tinha 47 anos. Uma droga de um câncer levou em 33 dias uma pessoa que só se importava com o próximo. Que dormia pensando no trabalho voluntário, que acordava ainda de madrugada, deixava café, comida, tudo pronto, tudo limpo e corria pra empresa, que ela deu um puta de um duro e que custou um monte de amigos chamando ela de “traíra” pra ela ter. Um ser humano inofensivo, incapaz de matar uma mosca, que aceitou estranhos na casa dela porque a filha é tão louca por ajudar os outros quanto a mãe. Que queria meu noivado com champanhe e morangos, num hotel de luxo, porque ela sim achava que eu merecia ser feliz. Que ficava orgulhosa quando me ouvia falar em inglês pelo telefone. Que contava pra todo mundo como o QI da filha era alto, cheia de orgulho.

Sabe o foda disso tudo? Que quando eu lembro dela, eu nem consigo lembrar dela sorrindo mesmo, me fazendo cócegas jogada em cima de mim na cama dela (lembro de partes disso, mas não lembro do rosto dela)… Eu só consigo lembrar do dia que meu pai e eu levamos a melancia pra ela na UTI do hospital. Lembro dela chorando feliz com a droga da melancia que ela queria tanto. Lembro dela me abraçando e chorando, já sem a língua, já sem os dentes, já sem os cabelos da agressividade do tratamento pra tentar poupar a vida dela. Eu lembro dela deitada naquela cama, com aquele cateter no pescoço e de mim de luvas descartáveis, passando a mão pela cabeça dela, ela já em coma. Minha última lembrança firme é essa: uma mulher despedaçada, já com a alma indo embora, desistindo de tudo. E eu não quero desistir do ser humano. Ainda não.

Mãe, eu espero que ao menos a senhora não tenha se decepcionado comigo. Se eu pudesse, eu trocava de lugar com a senhora, sim. A senhora com certeza faz mais falta no mundo do que qualquer outro ser humano. Mas eu não posso. Então eu vivo do jeito que dá. Mas tá dando cada vez menos pra viver do jeito que a senhora me ensinou e, por isso, me perdoa.

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