O AMOR DE UMA ÚNICA NOITE

Ana gostava do rock and roll. Estava naquela fase da faculdade em que tudo é novidade, apesar de certas coisas não a surpreender: ela não ligava pras festas nos bares, pras viagens “esportivas” que tinham por pretexto embebedar garotas e arrancar sexo delas num alojamento do interior. Mantinha uma certa distância de pessoas burras, como se a burrice fosse algo contagioso. Andava com Sofia, uma pequena ruiva fogosa, que parecia uma ninfa saída de um filme pornô e pra quem todos os garotos da faculdade viviam pagando pau.

Ana não tinha muita confiança em si, sexualmente falando. Era uma menina que gostava muito de escrever, que entrou na faculdade particular depois de frustrar-se com o vestibular do ensino público e tomar bomba por pouco. Desde moleca sabia que esse era o curso da sua vida: jornalismo. Finalmente poderia mostrar pra todo mundo que era “escritora profissional”, planejava mil materiais diferentes, livros dos mais variados temas, uma autobiografia talvez aos 25. Aos 20 anos, estava um pouco enjoada do mundo que a levara até ali: muito punk rock, muita rebeldia, cigarros e maconha fumados escondidos no quintal de casa, ao lado dos gatos.

Ela transbordava opinião, e seu grupo de colegas “menos burros” – era assim que ela os classificava pelas costas – eram também um pouco babacas e inocentes na vida: um japonês de família restrita, uma menina da igreja batista, uma ex-viciada que se escondeu debaixo da escrita… ela se sentia a única ali dentro daquela sala de aula com um propósito. Julga muito sem conhecer, porque também não tinha nenhum interesse de fato em ficar próxima de qualquer um deles. Trabalhava em dois empregos diferentes, estudava nas horas vagas. Tinha saído de um relacionamento em que foi traída três vezes, perdoou as duas primeiras, mas a última foi impossível, já que ela viu tudo acontecer.

Então, ali naquele clima de faculdade, ela queria aproveitar as pessoas novas pra respirar um ar diferente, tomar uma cerveja vez ou outra ou cantar uma música na máquina de karaokê antes de ir pra casa dormir por quatro horas e começar o dia de novo. Não passou por sua cabeça conhecer homens, como a maioria das garotas estavam desesperadas pra fazer. Por não ligar pra nada, inclusive pra comida nessa época, Ana foi gradativamente perdendo o peso que sobrou do último namoro. E ficou visível àquela safra de cafajestes se passando por estudantes de alguma coisa.

Um dia, começou a conversar com o Sérgio na fila da lanchonete. Sérgio era um cara da sala dela com quem ela deveria estar fazendo um trabalho sobre um livro de psicologia. Sofia vivia falando de Sérgio, dizia que queria transar com ele porque ele era “gostoso”. Ana nunca prestou muita atenção a ele, mas na fila do pedido de batatas fritas, ela resolveu analisá-lo enquanto falavam de quais tipos de performances seriam inclusas na apresentação do trabalho.

Sérgio tinha uma espécie de beleza exótica: cabelos compridos, cacheados, um louro escuro, olhos azul esverdeados, uma boca carnuda, moreno de sol, musculoso pra idade dele. Não era muito alto, o que deixava Ana um pouco desapontada depois de finalmente analisar a “embalagem” de Sérgio. Ele tinha uma moto vintage, morava num condomínio fechado afastado da cidade, coisa de gente rica. O pai dele era dono de uma produtora audiovisual, então ele vivia contando sobre comerciais de televisão que gravavam, ou videoclipes, ou pilotos de programas pagos. Quando, dias depois, ele se mostrou interessado pelo livro de quase 400 páginas que deveriam analisar, Ana se animou ainda mais com a chance dele ser “vida inteligente” dentro daquele berçário pra gente maior de idade.

Um dia, no intervalo, foram de novo pra fila da batata frita. Sérgio simplesmente iniciou o diálogo:

– Eu queria estudar um pouco mais o livro e combinar a ordem das performances da apresentação, o que você acha de irmos pra minha casa no final de semana? Lá tem piscina e podemos fazer um churrasco depois de deixar o trabalho pronto.

– É mesmo? Acho uma boa! – Ana respondeu. Ela tinha certeza de que ele havia convidado o grupo inteiro pra esse momento de estudo e relaxamento. Alguma coisa quebrou dentro da cabeça de Ana, propositalmente ou não, pra ela simplesmente não perguntar pros seus demais colegas a hora que saíam, quem ia de carona com quem. Sérgio combinou de buscá-la no metrô no sábado bem cedo. Ela fez uma malinha com seus cadernos, um biquíni e muitas camisetas e calcinhas pretas; ahn, claro, o livro. Ele despontou na esquina da saída da estação. Ana entrou no carro e sentiu o perfume maravilhoso de Sérgio – o cara sabia escolher um bom perfume pra enlouquecer uma mulher, tava na cara que era uma das razões pela Sofia falar tanto dele.

– O pessoal está indo pra lá? – Ana perguntou finalmente, achando que estava tudo certo.

– Não, eu só convidei você; – retrucou.

Ana ficou gelada. O coração deu uma disparada: ela então estaria sozinha com Sérgio, em uma casa paradisíaca, no meio do mato, com uma piscina e álcool à sua disposição… Mais a família inteira do sujeito dentro da casa, o que incluíam os dois irmãos mais novos dele. Ficou completamente sem ação.

Chegando na casa de Sérgio, tirou os óculos escuros e constatou: de fato o lugar era lindo. Os pais dele eram engraçados: o pai era um cara de meia-idade bem bonitão e alto. A mãe, uma perua esquisita, loira, que usava leggings com estampas de bichos e tops rosa-pink. Seus irmãos mais novos eram versões em miniaturas dele, mas nerds até os últimos fios de cabelo. Um estava sempre lendo e o outro o tempo todo no computador. Os pais resolveram deixá-los numa sala de tijolos expostos, cheios de posters do Elvis Presley e da Ella Fitzgerald e de luz amarelada, forte, mas aconchegante. Ana resolveu se concentrar na missão do trabalho e arrastou Sérgio consigo por horas a fio, até estar tudo pronto.

Ele saiu da sala e voltou com um copo de caipirinha.

– Coloca maiô, vamos dar um mergulho, tá muito quente.

Já eram mais de quatro horas da tarde, o sol estava baixando, mas ele tinha razão: o calor estava insuportável. Ana foi ao quarto dele, onde estava sua mala, e vestiu o biquíni de cortininha preto. Se olhou no espelho; estava magra, bonita, mas morria de vergonha daqueles seios imensos. Jogou uma camiseta por cima e pulou assim na piscina. Sérgio melhorou o clima colocando uma balada romântica do Aerosmith que ecoavam num alto falante do bar em frente a piscina. Conversaram, beberam. Riram.

Quando os dedos já estavam ficando enrugados, saíram da água. Àquela altura, os pais saíram para comer na cidade ao lado e deveriam demorar. Sérgio mostrou o banheiro e deu uma toalha à Ana. Ela entrou no banheiro, passou o trinco e tomou um banho frio demorado. Quando voltou ao quarto de Sérgio para pegar um pente em sua mala, ele estava ali de toalha, em cima da cama, de banho já tomado, lendo mais um pedaço do livro. Foi um pouco constrangedor o movimento dele: ele se levantou nu, trancou a porta do quarto, colocou mais uma música do Aerosmith, sentou-se na cama e puxou Ana pela mão.

– Eu esperei o dia inteiro pra fazer isso. – disse, beijando-a com ardência.

Apagou as luzes amareladas do quarto, todo em estilo vintage, com estantes em formatos diferentes, livros de referências de produção audiovisual por todos os lados e bolachas de discos em vinil presas nas paredes, junto de um sem número de miniaturas de carros variados. Ele beijava seu corpo inteiro, o cheiro do perfume a deixava ainda mais bêbada e entregou-se completamente a ele. Ana teve a impressão, pela primeira vez, que aquilo era FAZER AMOR de verdade, mesmo que com uma pessoa com quem não tinha um envolvimento amoroso. Os beijos de Sérgio eram molhados, as mãos eram fortes e a luz do abajur na cabeceira da cama ressaltava o bronzeado da sua pele.

Ana se sentia livre pela primeira vez de fato. Antes de Sérgio, tinha tido dois namorados: um por sete anos, o que a traiu três vezes, e outro por breves oito meses, só pra mostrar que tinha saído “por cima da situação”; mas como não gostava muito dele, logo o dispensou. Fora que ela tirou a virgindade dele, o que soava maternal demais pra ela. Inverteu a posição com Sérgio e agora ela estava por cima dele. Ela afiava as unhas no peito musculoso daquele gato manhoso, intelectual, lindo, que cheirava maravilhosamente bem. Ele a segurava pelo quadril enquanto ela se movimentava, e dizia, incrédulo:

– Você não existe.

Sérgio era o terceiro homem com quem Ana se relacionava sexualmente e, apesar dos longos anos de sexo com o primeiro namorado e dos ensinamentos de sua experiência para o segundo, aquilo era algo completamente novo pra ela. Ela dominava a cena. Fazia movimentos que Sérgio olhava e sentia sem entender muito bem, era possível perceber o êxtase dele. Ele se sentou na cama, com ela de frente pra ele, em seu colo, e a beijava com carinho, acariciava suas costas, seus seios. Quando finalmente gozaram, ele convidou:

– Vamos dar um passeio de moto?

– Agora?!

– É, vamos?

Vestiram-se e montaram na Harley Davidson dele. Ele colocou uma bandana na cabeça, parecia aqueles caras gostosões de filmes, que fazem parte de moto clubes criminosos de beira de estrada. Foram até a cidade vizinha. Sentaram-se em uma praça, com um coreto, daquelas de interior, com a igreja no final do quarteirão.

– Acho que fizemos amor, não sexo, Sérgio. – começou hesitante, Ana.

– Eu também acho. Nunca fiz isso antes. Foi incrível. E como a gente ainda consegue conversar depois daquilo tudo?

– Eu não sei, mas temos mais dois anos pela frente na faculdade, e eu não tou querendo sair do foco, me desculpa.

– Eu entendo. Eu vou mudar de faculdade e de curso, então provavelmente não nos veremos de novo depois do final do semestre. Eu devo pedir pra você namorar comigo, mesmo você não querendo compromisso?

– Gostaria disso sim, mas não seria justo.

Ana estava tendo sua primeira conversa adulta, seu primeiro relacionamento casual. E sentiu-se bem por ser com uma pessoa que de fato se importava e que a queria ver bem e confortável com aquilo tudo.

– Não vou esquecer dessa noite nunca mais. – disse Sérgio.

Nas semanas seguintes, eles flertavam, ficavam às vezes de mãos dadas. No dia da despedida de Sérgio da faculdade, Ana não quis participar. Não queria se despedir. Pegou o caminho rumo ao metrô e, enquanto estava andando, aquele barulho característico da moto de Sérgio a perseguiu e ela ouviu:

– Eu quero um beijo seu antes de ir embora.

Apoiados na motocicleta, beijaram-se romanticamente, lindamente pela última vez. Trocaram olhares íntimos. Abraçaram-se. Nunca mais se cruzaram na vida.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s