“HOJE EU VOU FAZER VOCÊ CHORAR”

Pensa que essa frase foi de alguém que me odeia? Foi da pessoa que eu tenho certeza que me ama mais do que qualquer coisa no mundo inteiro: meu pai. Eu prometi que não ia escrever nada sobre isso mais, mas tá me incomodando e eu tou conseguindo finalmente tentar lavar a minha alma, a minha mente e o meu coração, que é quente demais.

Hoje eu acordei com uma dor absurda no corpo. O último post publicado já estava programado pra ir ao ar pela manhã. A dor no peito inclusive, parecia que ia me fazer infartar, eu não conseguia respirar. Passei a manhã e o início da tarde deitada, tentando me distrair. Fui pro meu tratamento estético. No meio de um procedimento bastante doloroso, eu caí em sono profundo, acreditem ou não. Acordei assustada, devo ter cochilado por uns dez minutos. O universo é testemunha que eu não queria descontar minhas frustrações no meu corpo, mas é um negócio que eu não consigo evitar: quanto mais triste ou com raiva eu estou, maior é a dor física que eu passo. Disfarcei e corri pro colo do meu pai.

Ele quis sair pra ir no mercado. Eu não falei uma palavra. No final das compras, fui ao banheiro e meu nariz voltou a sangrar muito. Fiquei mais uns vinte minutos ali assustada, um pouco zonza, tentando estancar o sangue. Meus rins doíam muito. Meu pai ficou preocupado. Eu disfarcei. De volta na casa dele, separando as compras, eu resolvi desabafar. A gente não cita nomes pra ele quando desabafa, não precisa. Ele, se conviver com a pessoa, descobre que foi dela que falei pelo faro, é impressionante. Ele fala que sempre sabia porque as pessoas com quem eu discuto agem estranho perto dele. Ele fala que são os negócios que ele sente. XPTO. Mas ele não entra em méritos.

No começo, ele ficou um pouco assustado por descobrir que eu, aos 34 anos, ainda não sei lidar com confrontos diretos. Ele sabe que eu me saio muito bem em conversas acaloradas ou debates, mas tinha esquecido como eu sou quando alguém fala mais alto do que eu. Acho que tinha década ou mais que eu não ficava desse jeito; e ele falou uma coisa interessante.

Ele me contou que o que estava causando toda essa dor física era porque eu estava tentando a dor emocional debaixo de uma centena de camadas. “Você precisa chorar bastante pra tirar isso de você. E eu vou te fazer chorar”. Quando eu acho que o arsenal de truques dele terminou, ele me solta essa. Derruba vinho na taça e esquenta uma lasanha no micro-ondas. De frango, odeio. Mas estava sem comer desde segunda-feira. Nada tava parando no meu estômago e eu estava morrendo de fome.

Começamos falando sobre a decadência da Idade Média, as noções de cavaleiros versus cavalheiros, a origem desse termo. Terminou dizendo: “cavaleiros são desonestos, filha. Eles não salvam a princesa no castelo e viram ‘bródi’ dela pra sempre. Eles querem o ouro, as terras. No final do dia, eles querem estar confortáveis, e eles estão certos, é por isso que lutam tanto. No final, nem é tão desonesto assim.”

Demos um passeio por todas as grandes mentiras da Idade Média para demonstrar aparência. Chegamos no nazismo, no programa nuclear. Passamos pelo Iraque, 11/9, sempre lembrando como o mundo é cruel. “Você não suporta crueldade no mundo, né filha. Mas ela existe todos os dias, e está dentro da curva do considerado normal. Só você e meia dúzia que abraça-árvore pensam desse jeito.” Nesse ponto eu estava no final da segunda garrafa de vinho. De repente, baixou o virginiano: “Bora, vou te levar, você tá cansada”.

Cheguei em casa com uma dor absurda ali na região que fica o fígado. Acendi uma vela vermelha e me deitei. Por mais que eu mentalizasse o vermelho, a dor só crescia. Foi quando eu comecei a chorar. Mas eu sou um bicho estranho: corri pra pegar meus fones e colocar uma música com mensagem positiva. Eu escolhi uma música que a letra parece estupidamente negativa, porque a situação é sombria: “monstro, me guie até meu lar”. Os fantasmas vieram todos de uma vez. Eu chorei muito. Estou chorando ainda, devo chorar madrugada a dentro. O que eu chorei até agora manteve o grau de dor suportável, e começa a me relaxar de novo. Passar mal pra passar bem é um processo ridículo e que me dá um pouco de vergonha, mas é o jeito que eu tenho de externar meus sentimentos negativos em geral. Pela manhã eu espero ter melhorado, porque como sempre, meu virginiano tem razão: a dor passa quando a gente expurga ela de algum jeito. Não vai passar em um dia ou dois, mas eu vou cicatrizar o meu coração.

Eu sou uma mulher pra cima, não sei ser diferente disso. Enquanto eu engatinho com a minha inteligência emocional, o racional já faz planos pra ajudar tudo isso a passar.

Posso estar errada, mas tenho certeza que eu fui incentivada a botar meus demônios pra fora semanas antes disso, em uma ocasião especial pra mim. Já dali eu tava sentindo o mal todo chegando. Eu vou exorcizar o meu demônio particular com ele mesmo me guiando até o meu lar. São as lembranças dos demônios que fazem a gente realizar a saudade e senti-los perto, nos guiando de volta.

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