ESPERANDO A ONDA NEGRA

Nativos de Satanáries possuem personalidade forte, mas eu nem precisava dizer isso, você sabe. Ele costuma não segurar a língua na boca e deixa claro o que gosta e não gosta, porque sinceridade é seu forte. Pra deixar um ariano muito puto da vida, basta desafiá-lo ou que não preste atenção no que ele está falando. Ariano odeia demora, mas pior do que tudo, odeia que lhe dê ordens, especialmente quando quem está tentando fazer isso não possui nenhum tipo de autoridade sobre o carneiro.

Eu, Satanáries, apesar de toda essa explosão vir original de fábrica do astral, sempre fui o oposto. E já fiz e refiz meu mapa astral, e não existe erro: eu sou ariana tríplice, então era pra eu ser violenta, a ponto de dar um tiro na cara de quem discute comigo usando argumentos errados. Porque eu consigo discutir e sei até reconhecer meus erros quando usam os argumentos certos.

Eu já disse aqui em um texto anterior que minha criação foi muito diferente do que é considerado normal pela sociedade. Eu fui criada em um ambiente aberto, no meio do fim da ditadura militar. Tinha uma mãe que, apesar de ser urso – daquelas que te liga de cinco em cinco minutos pra saber se tá tudo bem – era moralista e tinha um certo comportamento hipócrita. Aliás, o único grande motivo de briga entre ela e o meu pai era essa hipocrisia que ela teimava em não admitir pro marido terapeuta.

Quando eu era menor, ao ser ofendida por uma criança, eu achava que o correto não era revidar, foi assim que eu fui educada. Eu reportava tudo ao “meu superior” – no caso, meus pais – e, caso houvesse punição ao meu agressor, muito que bem; mas se não houvesse, eu simplesmente esquecia o fato. Eu fui uma criança relativamente fácil de se relacionar justamente porque eu deixava todas as “picuinhas de criança” pra lá – as injustiças do esconde-esconde, a peça do lego que fulaninho não queria me emprestar, as figurinhas que eu via virar mas que não ganhava no bafo. Eu era boazinha, pode admitir.

Aí, no primeiro ano de ginásio, veio o bullying físico – violência física – e, na sequência, a violência sexual. Eu apanhava todos os dias na escola particular. E eu tinha medo de enfrentar porque não era de “igual pra igual”. Era uma gangue de alunos, uma classe inteira que poderia me matar espancada caso alguém soubesse. Até o dia que eu não aguentei mais e contei pros meus pais, que não acreditaram no início. Na verdade, eu contei pra minha mãe e ela achou que eu estava inventando. Até o dia do paralelepípedo. Nesse dia, eu saí da aula e estava indo pra casa, como sempre, quase que correndo, pra fugir dos abusos físicos dos colegas. Não deu muito certo também, como sempre. Eu fui pega na esquina por um menino que tinha aquele corte de cabelo do Jim Carrey em “Débi&Lóide”. Ele pegou um paralelepípedo solto da sarjeta e bateu com ele na minha nuca. Eu fiquei tonta e quis desmaiar, mas misteriosamente eu caí no colo da minha mãe, que viu tudo escondida numa perfumaria ali perto e tentou impedir a agressão. Lembro do sangue quente escorrendo pelo pescoço e das crianças gritando que o garoto provavelmente tinha me matado daquela vez. Lembro da minha mãe me chacoalhando pra eu não dormir enquanto com a outra mão ela arrastava o garoto pelos cabelos até a casa dele. Lembro da mãe dele indo pra cima da minha, até ela mostrar o tamanho do rombo na minha cabeça. Ele apanhou de pano de prato molhado na cara. Nunca senti tanto senso de justiça na minha vida – até hoje – como naquele dia. Me senti vingada também.

Quando eu tava achando que finalmente eu estava livre do bullying, esse menino se reportou aos superiores dele – no caso, os meninos da oitava série, valentões como ele. E aí veio a violência sexual. Foi aí que eu entendi uma coisa na vida: nem sempre a gente pode contar com a justiça pura e simples. Quando a gente procura a justiça, ela pode simplesmente cagar na sua cabeça e fazer algo pior, MUITO PIOR. E eu não saí mais de casa por um ano inteiro. E aprendi a chorar no banheiro, durante o banho, ao invés de contar tudo pro meu pai, que com certeza mataria cada um deles. E aí, meu pai seria o bandido, porque ninguém ia querer saber que ele foi atrás de estupradores. Ele teria cometido assassinato, violência física contra menores de idade, aquelas “pobres criaturas”. Foi aí que me bateu grande que a justiça quem faz é a vida, sozinha, não eu, tentando fazer o que é certo.

No trabalho e em outros ambientes, eu me acostumei a ouvir a ofensa, ou a ser agredida, e a nunca mais responder ou reagir. Eu chorava no banheiro, no ônibus voltando pra casa, esperava todo mundo dormir pra chorar. Até que eu escolhi meu trabalho e percebi, aos poucos, que eu sim virei uma figura de autoridade. Então hoje, eu procuro não permitir que injustiças aconteçam, identifico culpados ou os errados e os puno de maneira adequada – considerada justa eticamente.

Minha última discussão porém, foi com uma pessoa que não possui nenhum senso de equilíbrio. E eu me achava histérica… Não sei como eu mantive a calma pra seguir tentando ter uma conversa civilizada, de gente grande, crescida, madura. Quer me chamar de vagabunda na cama, não tem problema, eu curto. Mas não use essa palavra pra justificar NENHUM comportamento ou declaração minha. Vagabundo é quem não trabalha, é quem se encosta nos outros e drena o sangue, o suor e as lágrimas até secar e passa pro próximo otário. Vagabundo é quem tem tristeza seletiva, depressão seletiva, problemas seletivos. Eu não sou assim. A pessoa teve a audácia de me ameaçar com as informações que eu dei durante uma primeira conversa sincera, aberta, com fins de esclarecimento.

Vou dizer que eu estava preparada pra todo tipo de reação, menos pra essa. Passei o resto do dia com o corpo adormecido, como se tivesse acabado de sair do Polo Norte nua. Eu não conseguia andar, nem pensar, nem trabalhar. Perdi um dia inteiro de tarefas que eu precisava entregar, mas sentia que se levantasse da cama, eu ia desmaiar ou vomitar. Esse é o poder de uma ofensa que eu não mereço exerce sobre minha personalidade de uma batata assada quando o assunto é confronto. Porque eu sei discutir, conversar, não sei berrar. E aí eu ficava inconformada, pensando na hipocrisia do agressor. Porque eu sei o motivo da discussão chegar onde chegou. E em nenhum momento, meu agressor verbal pensou “hummm, mas eu já fiz isso, na verdade, meio que fiz pior, mas foda-se, eu posso fazer, ela não”. Não sei confrontar uma pessoa que fez uma coisa comigo, se eu já fiz essa coisa com outra pessoa. Eu vou baixar minha cabeça, respirar fundo e continuar, porque eu não tenho a “moral” pra falar nada.

O pior ainda não veio, que é a onda que meio que me apaga do mundo por uns dias. Não sei o que aconteceu comigo, que hoje eu acordei e vivi o dia normalmente… Por fora. Por dentro, em vários momentos do dia, eu quis chorar, mas não consegui ainda. Eu chorei por outra razão ontem. Ainda não chorei por ter sido tão ofendida, tão magoada, por alguém que não faz a menor ideia de quem eu sou mesmo. Eu vou bater nessa tecla: não fale de quem você não sabia nem o nome até “ontem”. Apesar de eu saber determinadas coisas sobre aquela pessoa, eu não usei. Tentei permanecer sóbria. Mas quando a onda finalmente me atingir, eu vou ficar imóvel da cama por dias. Eu vou procrastinar minhas tarefas, vou dormir o dia inteiro, vou chorar escondida no meu quarto, enquanto todo mundo dorme. Só não vou me sentir mais culpada de nada, porque eu já não reajo o suficiente.

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