ELA PRECISA SABER

Pra tudo na vida, existe um começo, um meio e um fim. E ela sabe disso. Ela sabe das dores, dos sofrimentos, das punições que a vida pode oferecer. Ela não pagou por seus pecados. E não quer pagar. E não vai pagar. Porque ela pecou, mas pecaram antes dela. Um pecado não justifica o outro, mas amortece suas justificativas e meios.

Ela se despe da vaidade, do ódio, do rancor. Mas a dúvida da lembrança permanece marcada em seu corpo. Ela se banha procurando lavar os pecados, os sentimentos, mas seu orgulho de mulher precisa permanecer intacto. Enquanto a água percorre-lhe o corpo, aprisiona-se nos pensamentos mais longínquos: suas dúvidas levantam lembranças. Essas lembranças ela não quer que a água morna leve. Ela não quer que suas ervas limpem a sensação de dor e prazer. Ela não quer que leve aqueles grandes olhos castanhos embora. Por um instante, ela olha ao seu redor.

Na escuridão de sua própria solidão, iluminada por pequenas velas, o cheiro de mel ascende. Ela se acomoda em sua banheira. Afunda a cabeça na água. Ela precisa saber se suas lembranças valeram a pena. Lembra-se dos corpos se contorcendo, das palavras sujas e tão sublimes sussurradas em seu ouvido, de cada palmada, de cada instante de êxtase, daquela paixão automática, que liga quando tudo começa e desliga quando tudo termina. Da sensação de alívio que lhe tomava o corpo, a mente, a alma.

Seu corpo emerge da água, agora mais fria. Encolhe-se. Fecha os olhos e se lembra de quando foi tomada de súbito, contra a parede. O beijo longo, molhado, enlouquecedor. As horas que viravam dias no sofá, com a televisão ligada, sem volume. Os puxões de cabelo. Os olhos fixos nos seus. A vontade de que aquelas horas nunca passassem.

Sai da banheira e liga o chuveiro. Deixa que o vapor quente esconda mais uma lembrança: a temperatura fria do ambiente, mas o corpo fervendo, curvado contra o metal quente de um motor, a lingerie verde, nas pontas dos pés, esperando para ser consumida. Os apertões, a sensação de estar completamente viva, com o sangue correndo rápido nas veias. Passa as mãos pelos longos cabelos molhados, e se lembra de como foi drenada, sugada por uma boca inquieta, de lábios macios, ávidos por seu gosto, como nunca ninguém o fez.

Lembra-se das mordidas nos ombros, nas coxas, lembra-se que se entregava completamente e, ao fim de cada hora, queria só se entregar mais, esquecer do mundo lá fora e vier ali, com tudo aquilo dentro de si, pra sempre. Desliga o chuveiro e caminha silenciosamente até a cama. Deita-se nua, cobre-se com frio e, com ele, vem uma saudade estranha.

Ela sabe que nada disso nunca mais vai acontecer… Ou vai? Talvez não agora, talvez não em meses ou até anos. Mas ela anseia ter tudo isso de novo. O pecado a libertava. Agora, ela está presa novamente ao trivial, à dura realidade diária. O que ela precisa saber é se isso tudo valeu, em algum momento, ou se será esquecido, posto de lado, como se não tivesse significado de libertação para aqueles lábios carnudos, aquelas mãos desesperadas, aqueles olhos que reviravam-se de prazer.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s