A ESTRELA DELA

Aquele olhar de quem precisa lhe devorar só ela tem. Camisão preto, daquelas de futebol americano, usado como vestido; unhas pintadas de azul metálico; lápis preto nos olhos, borrados sutilmente; sobrancelhas arqueadas, intimidantes com aqueles grandes olhos castanhos. Ela sente que tem estrela. A boca contornada com um batom azul bem escuro. Cabelos longos, bagunçados… O cigarro aceso em uma mão, um copo de vodca na outra. Botas de cano curto, altíssimas.

Quando acorda, se olha no espelho e fica contemplando o silêncio duro da casa vazia… Acaricia seu gato, anda de pé no chão e leva água ao fogão pra fazer café. Acende o cigarro no mesmo fósforo que usou  na boca do fogo. Coça o pescoço, prende o cabelo, senta no sofá já impaciente. Deita-se no sofá e perde-se por cinco minutos nos próprios pensamentos… Mãos lhe vêm a mente…

Um par de mãos. Mãos grandes, de homem; quentes e ávidas pelo toque em sua pele. A água ferve e ela se levanta, pega o pó de café e leva três colheres à água… Menos açúcar dessa vez, ela adora um café de boteco. Enquanto mexe com a colher lentamente, apoiando-se na parede da cozinha, leva uma mão à cintura, e o par de mãos volta a tomar conta do seu primeiro raciocínio do dia. Ela em pé, um braço levantado com o cigarro, o copo de vodca na outra mão, deixando-se levar, de olhos fechados, pela música. Sente-se anônima, livre no meio da multidão. Aquelas mãos lhe percorrem a cintura até chegar aos quadris, apertá-los um pouco, e as mãos voltavam deslizando para sua cintura, e dessa vez, o toque é mais intenso.

O café ficou pronto e ela leva até a garrafa para coá-lo. Sente o cheiro penetrar-lhe as narinas e lembra-se que estava em verdadeiro transe quando aquelas mãos transformaram-se em braços, lhe alisando por todos os cantos do corpo… Logo, braços e mãos trazem consigo a cabeça, de cabelo raspado, acima da sua… Ela sente ele cada vez mais próximo, até sentir seu perfume… Quebra o pescoço para o lado, oferecendo-o a uma boca úmida, arrepiando-se, deleitando-se. A estrela dela está brilhando.

Bruxa, maldita, puta, vagabunda, cachorra, ele sussurra em seu ouvido. Abandona sua cabeça no ombro dele… Ele segura seu rosto com as mãos, rapidamente a vira de frente pra ele… Ela, olhos fechados. Ele, com sede dela. A estrela dela está incandescente. O café que não cabe na garrafa ela termina de coar em uma xícara antiga de porcelana. Mesmo de olhos abertos, caminhando em direção ao sofá – agora de posse de um café quente para a manhã fria do início da semana – ela agora enxerga a cena toda: ela perdida, no espaço tempo, com aquelas mãos, braços, boca… Ela transpira e aumenta a teia de pensamentos.

Imagina-se fantasiando com um quarto de motel, luz roxa, e ela sai daquele camisão dançando pra ele, embaixo dela. Ele beija suas coxas… Desgraçada, maldita, filha da puta, ele pragueja. Ela aproveita a posição de controle, e com um dos pés, empurra o tronco dele em direção à cama, vai ao céu e volta. E ele continua: tentação, garota-problema, você me mata desse jeito… Você é l-i-n-d-a. Ela morre a pequena morte, é ali que ela sabe que a estrela dela o cegou.

Levanta-se e vai para o banheiro. Despe-se e entra no chuveiro. O som da música mais alto, para esquecer os pensamentos, a fantasia para a imaginação, lava seus pecados. Desperta.

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