O MACHISMO FEMININO NO MUNDO “MODERNO”

No filme inspirado no livro “Geração Prozac” da escritora Elizabeth Wurtzel, Christina Ricci, no papel da própria autora, narra uma cena sobre a perda da virgindade de sua personagem com um hipster-drogado-playboy de Harvard da seguinte maneira: “Ele me disse depois, em termos de valor absoluto, que sexo e drogas foram igualmente sem sentido para ele: eram apenas duas maneiras diferentes de se divertir, o que é muito bom, até que uma garota tente a mesma abordagem ao assunto”.

Verdade seja dita, acredito que hoje vivemos em um mundo muito mais machista do que na década que eu nasci, mais de trinta anos atrás. Especialmente quando se trata de liberdade sexual. Durante essa semana, a imprensa trouxe um resultado alarmante sobre como os brasileiros enxergam as vítimas de estupro e eu fiquei com vontade de chorar. Um em cada três brasileiros culpam a vítima pelo crime! Um terço da população brasileira pensa que, quando uma mulher é violentada, é porque ela tem culpa, dá pra entender o tamanho da loucura nessa resposta? A coisa toda piora muito quando você aprofunda as opiniões: cerca de 42% dos homens e 32% das mulheres pensam que “mulher que se dá ao respeito não é estuprada”. Mas quer o fundo do poço? Eu chego lá: 85% das mulheres do país temem algum tipo de violência sexual. Ainda de acordo com o estudo,30% dos homens acham que a mulher que usa roupas consideradas “provocativas” não pode reclamar se for estuprada. Sério mesmo?

O que isso quer dizer? Quer dizer que não só homens são machistas, mas um terço das mulheres, apesar de temerem violência sexual contra si, pensam em conceitos morais para justificar o cometimento de um crime hediondo como é o estupro. As mulheres estão perdendo para si mesmas. E isso é algo difícil de acreditar… Vejo tanta feminista por aí, mas e esse terço da população que pensa que imoral é usar “roupa provocativa” e não no fato de que estupro é, além de um crime, algo completamente antiético?

Eu converso com mulheres que pensam como homens, e isso me assombra: mulher que “dá o rabo” pro namorado “não presta pra casar”; “fulana adora esse modelito me-estupra e depois reclama de estupro”; “aquela gorda não serve nem pra ser estuprada”; “mulheres tatuadas são do tipo ‘qualquer uma’”, entre outras bobagens que não dá pra escrever nem em um blog libertino como esse!

Costumo dizer que eu sinto saudades de coisas que ainda não tenho ou do que não é ou nunca será meu… Então, com essa liberdade poética, eu sinto saudades das mulheres que se uniram contra tiranos, contra perseguição, ignorância e preconceito. Sinto muita falta de ver mulheres reunidas em torno da fogueira, nuas, cantando e dançando, celebrando a natureza, que é tão feminina, a lua, as colheitas, as marés, as Grandes Deusas. Sinto saudades do Egito Antigo, em que mulheres, mesmo em uma sociedade de castas, tinham sua fertilidade respeitada e deusas adoradas… Das manifestações que pediam direitos igualitários simples como voto ou mesmo de trabalhar sem ser apontada na rua, de tomar a iniciativa de pedir o divórcio do marido sem ser esquecida pela sociedade, ou de fumar, ingerir álcool em público, ou dirigir!

Hoje, mulheres julgam outras mulheres como se fossem homens do século XIX falando de mulheres, ou até pior: homens preconceituosos – não estou dizendo que todos são, por isso especifico – da nossa época, do nosso convívio falam de mulheres. Mulheres julgam por inveja, por insegurança e por medo ou ciúmes doentio, o que é pior, quando vários dos homens, mesmo os preconceituosos, falam algumas vezes da boca pra fora. Elas falam das que não conhecem pessoalmente, falam pela foto do perfil, por uma piada, por um vídeo no youtube, por uma mensagem de mau gosto de uma situação específica para grupos e grupos de whatsapp… Um terço das mulheres, podemos dizer isso com segurança, possuem esse tipo de atitude. E quer mais? Elas são HIPÓCRITAS da marca mais cara! Elas julgam mulheres mas não aceitam ser julgadas. Elas falam da forma como as outras se vestem ou agem, mas morrem de ódio por dentro porque gostariam de ser mais notadas visualmente ou ser o centro das atenções. Elas julgam mulheres de atitude mas gostariam de ter coragem para terem sua própria personalidade.

Muitas mulheres criticam a superexposição do corpo de Kim Kardashian, mas gostariam no fundo, de ter o corpo, o marido doido e a inteligência / faro para a criação de impérios milionários.
Muitas mulheres criticam a superexposição do corpo de Kim Kardashian, mas gostariam no fundo, de ter o corpo, o marido doido e a inteligência / faro para a criação de impérios milionários.

Eu já passei pela minha cota de problemas com isso. Eu sofri violência sexual muito jovem e, para não me estender nesse assunto particular, eu tive medo de contar aos meus pais e à polícia por duas razões: 1) meu pai com certeza encontraria os culpados e os mataria, literalmente, com tiros na cara e; 2) uma vez que as pessoas soubessem, me julgariam exatamente por eu não ser socialmente, à época, popular e por ter um corpo de adolescente “quase mulher” aos nove anos (quando eu menstruei). 

Então, vamos torcer para aos poucos, cada um voltar pro seu quadrado, e a mulher parar de enxergar concorrência pura e simples em outra mulher e passar a vê-la como uma irmã na luta, que ainda não acabou, contra o sexismo e o machismo, principal causa de tanta violência sexual.

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s