MISTER CROWLEY

Acho que já deu pra notar que eu sou uma pessoa bastante eclética: eu gosto de vários tipos de música, curto vários tipos de práticas religiosas e adoro discutir sobre os mais diversos temas. Como uma ariana autêntica, eu nunca estou concentrada em uma única coisa na minha vida.

Uma das coisas que eu filtrei para a minha chamada “vida espiritual” é uma lei máxima da Thelema: “faça o que tu queres há de ser o todo da lei”. Essa frase foi criada por ninguém menos que Aleister Crowley, um dos maiores picaretas do ocultismo moderno. Por quê ele era um picareta? Eu explico a minha opinião.

O nome real do cara é Edward Alexander Crowley. Apesar de excelente poeta e escritor, grande viajante, montanhista e provocador social, Crowley adorava colecionar títulos que ele concedia a si próprio, além de um usuário pesado de drogas opióides e um grande libertino sexual – não que esse último seja um problema em si, mas as “desculpas” usadas por ele para conseguir sexo eram ridículas. A imprensa o chamada de “o pior homem da Terra”.

O libriano com ascendente no egoísta leão passou boa parte de sua infância em um hostil ambiente de repressão religiosa cristã e, por isso, foi um exímio estudioso da Bíblia Sagrada. Na juventude, ficou conhecido por sua habilidade de escrita. Em pouco tempo, passou a instruir-se em ciências ocultas por amigos como Oscar Eckestein e George Cecil Jones – este último responsável por introduzi-lo na Ordem Hermética da Aurora Dourada. Foi na Aurora Dourada que ele ascendeu rapidamente, além de estreitar laços com os fundadores da ordem.

Próximo dos seus 30 anos, Crowley casou-se com Rose Edith Kelly, apenas um dia após conhecê-la e, durante sua lua de mel no Cairo (Egito), tomou contato com as divindades locais e sua esposa relatou ter contatos com uma entidade que precisa falar com o seu marido. A história aqui começa a ficar esquisita: ela recebe um ritual de invocação de Hórus – uma divindade egípcia conhecida como patrona das guerras. Durante a repetição desse tal ritual recebido é que ele recebe de uma outra entidade (Aiwass) o Livro da Lei, precedendo uma “nova era” (Aquário).

Rose, a
Rose, a “mulher escarlate” de Crowley.

Na sua volta, ele mostra o livro à Mathers, o líder da Aurora Dourada, e ambos se desentendem, dando início a uma “guerra mágica” de ataques espirituais – Crowley usou demônios da goetia para lançar maldições a Mathers. É importante ressaltar que Crowley estudou magia das mais variadas culturas, em diversos países. Após essa briga, Crowley decide fundar sua própria ordem secreta e a batiza de Fraternitatis Astrum Argentum, com ascendências baseadas no glifo hebraico “árvore da vida”.

Quando ele finalmente participa de um ato de magia sexual e enoquiana, os ataques públicos começam. Crowley, que adorava fazer publicidade de suas obras escritas e de sua participação em diferentes rituais, de diversas seitas e ordens secretas, vira o responsável por diversos ataques da imprensa às tais ordens, consideradas satânicas e pervertidas, o que incluía contar pra todo mundo sobre suas relações homossexuais com membros dessas ordens. Crowley era assumidamente bissexual bem no meio do período vitoriano inglês. Mathers aproveitou a onda para continuar seus ataques a Crowley.

Se houvessem redes sociais na Inglaterra vitoriana, Crowley provavelmente seria uma figura extremamente popular – ele amava um holofote e adorava mostrar seu lado leonino exibicionista e com excesso de confiança através de autopublicidade de sua orientação e atos sexuais, brigas e escândalos – que não foram poucos também. Crowley, no entanto, é autor de estudos e publicações um tanto interessantes. Entre os meus favoritos está “O Livro das Mentiras”, em que ele revela um ato de magia sexual de alto grau. É no período em que ele é iniciado na Ordo Templi Orientis que seu trabalho como autor de ocultismo fica popular no mundo.

Como um bom fujão medroso, Crowley vai morar nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial, e nesse período ele passa a se intitular TO MEGA THERION, ou “a grande besta” ou ainda “666”. Notem que são décadas de tempo até que Crowley finalmente funda a Abadia de Thelema, sua primeira sociedade alternativa com base thelêmica. Só que ele funda a sociedade na Itália, e, obviamente, é expulso do país por Mussolini. A thelema é uma verdadeira “zona ocultista” – contém os mais diversos elementos de magia e cultura egípcia, hermética, cabalística e métodos de gnosis e cerimoniais voltados à alta magia sexual. É através da Thelema que ele se proclama DEUS – sério mesmo, tio Crowley?

Entre os famosos que ele conheceu à época está o escritor português Fernando Pessoa, para quem Crowley fez “correções de mapa astral”. E nessa época, seu estilo de vida devasso e regado a drogas o leva à uma crise de finanças pessoais, falindo na década de 1930.

Esses seriam os últimos anos de Crowley. Graças à Thelema, promoveu grandes orgias como atos mágicos e introduziu-se ao Magick. Na sequência, levantou-se contra ninguém menos que Adolf Hitler e foi contratado por um agente da Coroa Britânica para auxiliar no interrogatório de Rudolf Hess, para fornecer a Winston Churchill informações sobre como funcionavam os pensamentos superstisiosos de Hitler. Nos últimos anos de vida ele escreveu outra obra que eu gosto bastante, “O Livro de Toth”, com um novo estudo e interpretação do tarô, que só foi publicado após sua morte. Mas o trabalho que eu mais gosto no final de tudo é o “Magick without Tears”, grande guia didático da magia do caos – preciso admitir.

Após a morte de Crowley, sua popularidade aumentou ainda mais, especialmente durante os anos 60 e 70, com artistas dando publicidade aos seus ensinamentos e ordens: Led Zeppelin, Stones, Beatles, Black Sabath e Ozzy Osbourne foram grandes divulgadores da biografia de Crowley. O vocalista do Iron Maiden, Bruce Dickinson, chegou a dedicar praticamente um disco inteiro a ele e escreveu, dirigiu e atuou em um filme sem pé nem cabeça chamado “The Chemical Wedding”, em que ele interpreta um servo de Crowley e conta como, através da ciência, ele volta à vida e bagunça o mundo inglês na Era Moderna.

Uma das referências dos Beatles à Aleister Crowley está impressa em um dos seus álbuns mais icônicos, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”.

No Brasil, Raul Seixas e Paulo Coelho compuseram uma série de músicas fortemente influenciados pela Thelema. Em um trecho de “As Valkírias”, Paulo Coelho ainda descreve, de certa maneira, como ele deixou a Thelema – a partir de uma experiência alucinógena / espiritual macabra – e passa a cultuar anjos e outras figuras míticas espirituais “mais leves”, o que impacta bastante em sua bibliografia.

Por quê, mesmo gostando de várias das obras de Crowley, eu o considero um grande picareta? Por vários motivos ocultos em sua biografia “oficial”: ele recebia dinheiro através de doações de seus discípulos, que serviriam para “aprofundar seus estudos ocultistas” quando, na verdade, ele esbanjava em suas viagens pelo mundo e em ópio – MUITO ÓPIO – e heroína; ele, apesar de anunciar publicamente que sua “patroa” era quem o dominava e a quem ele obedecia, organizava grandes orgias sexuais em que dezenas de homens se engajavam em sexo com a mesma mulher, transmitindo doenças e transformando-as em verdadeiras escravas sexuais com a desculpa de atingir “altos graus de magia” ou “gnosis espiritual”. Ele se intitulava maçom, sendo que a ordem nunca o concedeu iniciação formal / oficial. Enfim, ele adorava arranjar desculpas para fazer o que bem entendia, sob seu próprio lema do “faz o que tu queres”.

No final, ele entendia de tudo um pouco, sem entender nada por completo. E eu tenho mais uma história sobre Mister Crowley, eu o conheci pessoalmente, sabiam?

Na minha adolescência, eu andava revoltada com o cristianismo (a minha história anterior sobre “pecado” conta como isso aconteceu) e passei a me interessar pelas publicações de Crowley. Eu sempre gostei muito de Raul Seixas – minha mãe me comprava os discos de vinil dele solo e do Pluct! Plact! Zum!. Numa época em que virei “celebridade por correspondência” (a internet era coisa de gente muito rica), um rapaz entrou em contato comigo pelo telefone – não sei como ele descobriu o número da minha casa – a fim de “trocar estímulos mágicos”.

Nos correspondemos por um tempo até que resolvemos nos encontrar pessoalmente. Ele me buscou no metrô e fomos até a casa dele. Ele me apresentou ao pai – um cara estranho pra cacete – e sentou comigo no sofá com uma garrafa de vinho do lado. Passou a me contar um “grande segredo” da vida dele: ele na verdade, era um alto mago thelemista, parte da Astrum Argentum, e considerado por discípulos da ordem como a REENCARNAÇÃO DE CROWLEY. Ele contava como se acreditava mesmo nisso! Dizia ter a marca do “666” no couro cabeludo – lembram-se do filme “A Profecia”? Hehehehe – e um vasto conhecimento mágico que veio à mente por meio de visões, assim como Crowley em sua passagem pelo Egito.

Com essa história em punho, ele quis me mostrar objetos mágicos no quarto dele. Eu, idiota, segui ele até o cômodo, que continha um monte de adagas, espadas, um grande pentáculo e alguns livros apenas. Foi aí que ele resolveu me jogar na cama – eu tinha uns 15 anos – e eu me recusei. Ele dizia que eu era a “mulher escarlate” dele, que eu havia sido revelado uma grande deusa em um sonho dele e que eu deveria consumar o “ato mágico” a fim de obter graus e ser iniciada na A.:A.:.

Foi assim que eu saí correndo de lá e nunca mais o vi. E foi assim que eu aprendi a andar pela linha inteira do metrô, mas não antes de furtivamente pegar emprestado – e não devolver nunca mais – um livro sobre o mito da Rosacruz, como vingança.

É… Discípulos são mesmo discípulos…As desculpinhas esfarrapadas pra comer garotinhas continua a mesma!

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