O CONDUTOR

Um homem dirige solitário na cidade vazia, durante a madrugada. Ele tem um sorriso fácil, um jeito de pessoa prática e analítica, uma boca de contornos e carne levemente protuberantes e olhos escuros, que nada revelam o que está lá dentro, bem no fundo da alma que ele não acredita ter.

Alto, moreno, com uma energia difícil de decifrar, tensa, sensível à fissão e ao toque da pele, seu brinco querendo te contar da sua natureza rebelde, mas domado pela dureza e pela seriedade do dia a dia. Suas mãos são grandes, dedos longos, quentes; as unhas, roídas pela impaciência de onde quer chegar, e, curiosamente, seu trabalho tem a ver com a palavra “destino”. Ele é um condutor, visto apenas por um lado, de costas fisicamente e metaforicamente para o mundo. Destino possui mais de uma interpretação. Condutor também.

Ele é o condutor da carruagem, quando sua noite termina e a magia se esvai junto com a lua, já muito alta no céu, e o frio do início da manhã te manda o recado de que a realidade está chegando para lhe atormentar. Ele te conduz pelo espaço-tempo quando você o olha de perfil e pensa “uau, isso não existe”… E o destino é o seu próprio deleite, em meio a uma jornada de quilômetros pela escuridão da madrugada, cheia de espectros e perigos que assombram os sem condução.

Ele te dirige à derrota, à glória, aos céus e ao inferno. Ele é lascivo, te despe com os olhos profundos, morde os lábios, molha os dedos com a ponta de sua língua longa, tenra, leve… Ele te conduz pela luz da sabedoria, te nina no ombro, te beija a testa em sinal de afeto, te domina como um cavalo selvagem, difícil de se controlar. Ele atravessa as estrelas e te dá conselhos, te faz rir e compreende teu choro.

Ele te encaminha ao prazer, à dor do prazer, ao ônus e ao bônus do prazer. O condutor te esconde e se esconde, mas gosta de ser encontrado, porque ele é só na noite, tanto quanto você o é. E de certa forma, sofre, porque ele sonha em guiar por estradas verdes, calmas, com o vento tocando-lhe o rosto e a música alta. Ele fantasia e divide seus momentos, e, com você, é capaz de remover, aos poucos, o véu de mistério que cobre seus pensamentos e opiniões. Ele queria controlar mais do que a velocidade… O tempo é seu amigo mais fiel e inimigo mais feroz. Porque ele queria mais momentos em que o tempo estivesse jogando em seu favor e não contra.

Ele te fita, por segundos, às vezes sem falar nada… E é impossível interpretar seu pensamento quando isso acontece. Você não o encara tanto porque ele o intimida. Porque ele não leva a destino algum senão o geográfico, se você não tiver a curiosidade, a coragem e o desejo de que ele te leve mais longe, para além disso. Ele revira os olhos, a voz é aveludada, mansa e um pouco ameaçadora… Mas as palavras são as de um curandeiro, um terapeuta, um bom amigo ou um grande amigo.

O destino do condutor nunca é único, nunca está em linha reta. E há demasiadas lições a serem aprendidas com o condutor para que seu destino esteja a poucos metros de distância, certeiro, quase matemático, mas, de certa forma, mágico.

E quando o condutor chega ao seu próprio destino, afinal? Impossível de prever, pois os caminhos são infinitos.  E quem quiser, pode descobrir se deixar-se conduzir.

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