COMO EU CONCEBO O PECADO

É óbvio que muita gente vai discordar de mim. Mas como nesse espaço eu quero mais é que o mundo se exploda – e por isso vou contar tudo o que eu quero da minha personalidade – acho que posso dividir o meu conceito de pecado com um ou outro leitor que aparecer por aqui.

Neste final de semana, durante um evento social, eu estava conversando com uma pessoa sobre o conceito de pecado, de certo e errado, de moral e de ética. É difícil acreditar que eu fico falando disso com pessoas no meio de uma festa, bebendo… Mas eu falo. E estava comentando sobre como funciona a dinâmica sexual de casais: gente que é casada, mas procura alívio fora do casamento; heterossexuais que buscam sexo homossexual, swing…

Eu ouvi uma opinião bastante carregada de julgamento, de que “uma única mulher é suficiente, e isso é prova de amor…” e que, se você oferece um caminho sexual diferente para quem está comprometido com você – de ménage a garotas (os) de programa, sexo em grupo, swing, essas coisas – você está ferindo esse amor. Será mesmo?

A opinião aqui é a mesma que eu dei nessa discussão: conceitos de fidelidade são relativos. A lealdade, porém, é absolutista. Uma pessoa LEAL não é necessariamente uma pessoa FIEL dentro de um relacionamento. Lealdade tem a ver com amizade, parceria, cumplicidade: a pessoa mata e você ajuda a esconder o corpo. Você encara problemas, dificuldades, tristezas, ódio, tudo junto com quem se ama. Já a fidelidade tem a ver com o sexo mais do que qualquer outra coisa. Se você busca uma experiência sexual diferente, ela pode ser consensual ou não. Consensual é quando você divide seu desejo e o parceiro aceita participar disso junto com você. Não é consensual quando o parceiro te proíbe de viver essa experiência e você a busca mesmo assim. Existe uma linha tênue entre os dois conceitos.

São vários os relatos que comprovam que relacionamentos com experiências sexuais diferentes, envolvendo outras pessoas, não prejudicam a LEALDADE em um relacionamento, sejam elas consensuais ou não. O ser humano possui necessidades diferentes dos animais, que usam o acasalamento com o único intuito: reprodução. Os seres humanos buscam PRAZER. E prazer gera uma certa qualidade de vida também! Reprimir seus desejos quando seu parceiro se nega a participar deles não é ético, mas é moral. Os conceitos de moral e ética confundem-se da mesma maneira que os conceitos de lealdade e fidelidade.

A moral é um conjunto de regras para o “bom convívio em sociedade”, e geralmente, tais regras possuem cunho religioso. A ética é um simples instinto de certo e errado. É certo contorcer-se em desejo, ter meios de realizá-lo, mas não fazê-lo simplesmente porque ele não é moralmente aceito? Se pessoas experimentassem mais os prazeres de novas experiências sexuais juntas, elas se amariam mais ainda: é sinal de que você não possui um sentimento de posse sobre o outro indivíduo, mas sim um respeito por seus desejos.

Aqui eu preciso contar uma história interessante, que muito tem a ver com moral x ética e pecado. Quando eu tinha uns 10 anos, eu fui enfiada numa catequese para agradar minha avó paterna, que era portadora de esquizofrenia e outros pequenos distúrbios mentais. De família italiana, era um sonho dela – quando estava dopada de medicação – que eu fizesse a primeira comunhão. Ela guardara o livrinho da missa da época em que ela mesma fez sua primeira comunhão, e seus terços de pérolas, ouro, rubis… E me entregou todos quando eu finalmente ingressei na catequese. Antes disso, eu participava ativamente de novenas pela vizinhança, era uma das poucas crianças que conhecia o funcionamento do terço, o cerimonial de uma novena… E por isso, eu acabei incentivando os desejos da minha avó.

A professora da catequese era uma senhora bastante dura, conhecida por conduzir suas turminhas com mão de ferro. Eu, que sempre fui uma nerd inveterada, mergulhei de cabeça no estudo do catolicismo, da Bíblia Sagrada e dos dogmas que regiam o cristianismo. Pois bem, desafio aceito, me tornei aquela aluna chata, que levantava a mão toda hora, fazia perguntas de interpretação bíblica, buscava significados na simbologia do cerimonial da missa, era sempre escolhida para as liturgias aos sábados, na frente de toda a comunidade.

Naquela época, meu pai era um maçom ativo. Ele ia pro templo às quartas-feiras e foi quando eu finalmente me interessei pelo assunto também. Comecei a fazer perguntas pro meu pai e, ele, na medida do possível, me respondia e eu passei a entender melhor o que ele fazia.

Num determinado dia, eu estava correndo na escola, quando quebrei o pé direito. Mas não estava sentindo a dor que era pra sentir porque o corpo ainda estava muito quente da última aula, de educação física. Saí da escola e fui direto pra catequese. Durante a aula, meu pé começou a queimar e inchar e eu, orgulhosa, fiquei na minha durante uns 20 minutos, até que não aguentei por causa da dor e comecei a chorar muito. Pedi à professora que chamasse meus pais, pois eu não conseguiria andar até a porta da igreja – a sala da catequese era, pra meu azar, no topo de uma das torres do prédio da paróquia, com um lance de escada horrível. Ela achou que era mentira minha e me puniu com ave-marias e Pai-Nossos enquanto os coleguinhas riam do meu castigo. Eu completei minha punição e, na hora de sair da aula, simplesmente não conseguia andar. Desci o lance inteiro de escadas sentada e pedi pra uma mãe de uma colega me levar pra casa. Quando minha mãe viu o tamanho do meu pé, me levou direto pro hospital. No sistema público de saúde, levei 8 horas pra ser atendida e quase perdi o pé, fazendo meses de fisioterapia. Não contei sobre o castigo injusto da professora, que considerou PECADO eu atrapalhar a aula dela pedindo pra ir embora.

Na semana seguinte, ainda de pé engessado – e a professora tinha uma ótima chance de se desculpar – eu voltei pra aula de catequese. Foi quando estávamos estudando a história dos papas. Eu tinha que levantar a minha mão quando falaram da maçonaria e dos maçons, de como eles eram pessoas ruins, que adoravam o diabo. Fiquei nervosa e perguntei: como se pode julgar uma pessoa pelo que ela pratica? “Meu pai é maçom e ele não adora o diabo, ele é uma pessoa boa”. Foi o estopim pra professora morrer de raiva. Ela ficou horrorizada, me pegou pelo braço e me levou na sacristia da igreja, e interrompeu uma ligação do padre, à época no telefone com uma “sauna mista”. Ela contou pro padre, que desligou o telefone correndo, que eu tinha pecado – faltavam algumas semanas pra primeira comunhão – e que eu precisava fazer a minha confissão antes dos demais alunos. Me senti completamente injustiçada e humilhada. Contei o motivo da minha revolta, expliquei quem era o meu pai e o que ele fazia, há quanto tempo era maçom. Recebi uma punição: passei o resto da tarde ajoelhada no banco da igreja, rezando Pai-Nossos e ave-marias. E ainda fiquei ameaçada de ser expulsa da catequese por ter um pai maçom!

Dessa vez, quando eu cheguei em casa, não me segurei. Durante o jantar, contei o que tinha acontecido pros meus pais. Meu pai largou a janta no meio, me pegou pelo braço e correu pra igreja comigo, tocou a campainha da casa do padre até que ele saiu lá fora. Meu pai começou uma palestra sobre maçonaria e igreja católica, sobre cavaleiros templários, sobre ordens clérigos cristãs possuírem maçons, chamou o padre de burro, falou que não existia por parte deles a noção correta do pecado e que ele tornaria o caso público se eu não pudesse fazer “a porra da primeira comunhão” pra agradar a vó doente mental. Naquela noite, meu tesão todo por estudar a religião católica deu lugar a estudos sobre Santa Inquisição, caça às bruxas, cruzadas, papas cruéis, enriquecimento ilícito da igreja… É, eu tinha faro político desde aquela época. E, depois da primeira comunhão, eu só entrei naquela paróquia pra ver casamentos e missas de sétimo dia.

Foi assim que fui parar na Federação Espírita do Brasil, foi assim que eu comecei a entender as letras sobre Thelema do Raul Seixas com o Paulo Coelho, foi assim que minha vida religiosa mudou. O conceito de pecado tornou-se algo hipócrita na minha cabeça. “Faça o que tu queres há de ser o todo da lei” virou meu mantra, estabelecendo pra mim conceitos mais básicos, como o de ética. Meu pai apoiou minha decisão e, em pouco tempo, eu estava ensinando crianças, numa escola de moral cristã, sobre conceitos de carma, Dharma, reencarnação, certo e errado…Eu cuidava de crianças de 4 e 5 anos, cantava músicas com lições ÉTICAS pra elas, explicava as brincadeiras, mediava disputas por brinquedos, ensinava a pedir desculpas e sobre o valor da sua opinião, do prejulgamento e preconceitos.

Eu passei a enxergar inclusive o preconceito social e racial de forma diferente. Eu comecei a sentir vergonha quando falavam “aquele pretinho” ou “tinha que ser pobre mesmo”. Eu entendi que pecado é isso: é desdenhar do conhecimento do outro, é julgar sem conhecimento, é não procurar compreender os motivos do seu próximo.

Então, o pecado pra mim é relativo. Considero pecado não viver a minha vida da forma como eu planejei, considero pecado ser privada das minhas vontades e meus desejos; considero pecado o preconceito contra estilos de vida, considero pecado ser hipócrita ou incoerente em termos de pensamento ideal x moral.

O que é pecado pra você?

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