A CIDADE E OS MEUS PECADOS

Mais um texto do meu grimório. Esse é de 2007.

Hoje vaguei pelas ruas dessa cidade cinzenta. Tão bela e tão desbotada, com pessoas totalmente estranhas, com aberrações e palavras. Com situações que não fazem o menor sentido. Eu me machuco nos espinhos dos seus prédios altos e frios, me queimo no calor de seu magma prateado.

Me banho na poluição dos seus rios, mergulho no som das buzinas e de tantas ofensas, de tantos preconceitos, sem calão, sem empatia. Me sufoco no trânsito de seres de outro planeta, que dirigem seus possíveis caixões pelas rotas desconhecidas.

No entanto, observo as nuvens de dentro de um dos meus caixões, como passageira do tempo, enquanto suas rodas me conduzem pelas avenidas pobres de espírito. É quase uma bênção diabolicamente divina. Eu surfo pelas teclas de outra caixa, passeio meus dedos por botões que me provocam enquanto o vento bagunça meus cabelos. Ultrapasso os limites do sensato e imagino mais.

Te imagino comigo nessa cidade tão sem vida, em uma madrugada qualquer, me pegando de surpresa. Me olhando no fundo de meus olhos embriagados por seu sorriso, enquanto me acaricia os ombros e me faz um ser vivo novamente. Meu universo por vezes é tão triste… Tão cheio de problemas, mágoas, mas sem rancores, e com muito medo. Mas perto de você, o medo some, o calor me consome e, ao invés de vagar por essas ruas, eu percorro absolutamente consciente cada centímetro da tua pele, em uma viagem sem volta pra dentro da sua alma.

O que é tão improvável torna-se possível porque, para cada dia cinza, tons alaranjados e vermelhos colorem meus pensamentos e enchem minhas veias de paixão. Eu me lembro de você. E sei que você se lembra de mim. Mas o que eu mais desejo é saber se, nas suas lembranças estão meu cheiro, meu gosto e o seu poder absoluto sobre mim.

Todo esse seu controle me faz perder o meu, e eu divago sobre quando você acorda, na sua cama, rodeado de pessoas que você gosta… Ou que pensa que gosta. E tudo fica dourado, cravejado de diamantes; algo fora dessa Terra quer me mostrar que meus desejos impossíveis são, na verdade, realizados a cada noite da sua companhia.

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